O que há de novo nas velhinhas fake news?
Desde a invenção da (im)prensa por Gutenberg, há 580
anos, que a boataria anda enrolada com a mentira e o preconceito se deita com a
demagogia. Com origem política ou religiosa, os factos impressos e difundidos
escapavam à verificação e seguiam caminho, transformando o Terramoto de Lisboa
numa punição divina contra pecadores propagada por gerações, a ignóbil
escravatura norte-americana numa atmosfera de medo provocada por ondas de crime
contra a população branca, ou a inexistência de violações em ondas de choque
público para acomodar um clima de guerra entre Espanha e Estados Unidos, no
final do século XIX. Passemos aos avassaladores ódios tribais contra minorias e
chegamos num ápice ao totalitarismo sanguinário do século XX, esse abusador do
superlativo identitário e do hiperbólico narrativo, criadores imperiais de
máquinas de destruição maciça. Esta constante manipulatória, que faz de cada
número alcançado um feito jamais inigualável por qualquer outro povo, percorre
abundantemente o discurso nazi, como estudou o linguista alemão Victor
Klemperer em The Language of the Third Reich, fazendo da métrica
trumpista tuiteira uma recauchutagem de más memórias.
A imprensa foi acompanhando a construção deste espaço
público, tornando-se numa primeira fase (séculos XVIII e XIX) no prolongamento
doutrinário de partidos políticos, animando o fervor de causas e depreciando
adversários. A partir do momento em que a publicidade entrou nas receitas do
jornalismo, este passou a falar mais para consumidores do que para partisans,
focando a atenção dos seus auditórios nos conteúdos produzidos, muitos deles
embrulhados em sensacionalismo propositado. Hoje esta máquina produziria
cliques imparáveis, na segunda metade do século XIX, primeira do século XX,
competição acesa pela venda de exemplares. Foi este o modelo seguido, por
exemplo, pelo The New York World, propriedade de Joseph Pulitzer,
ou do The New York Journal, de William Hearst, figura que serviria
de inspiração a Orson Wells, em Citizen Kane.
É no pós-guerra que a responsabilidade social passa a
ser assumida pelos grandes jornais, juntando o compromisso pela verdade dos
factos a um desígnio comercial proveitoso. Maior objetividade noticiosa, mais
mundivisão preparada e escrutínio dos poderes públicos, foram acompanhando a exigência
de leitores mais escolarizados e progressivamente comprometidos com a
consolidação das democracias. A imprensa não só acabou por estabelecer os
princípios da normalidade do debate público como definiu o perfil dos seus
inimigos, as fronteiras do intolerável e os abusos inadmissíveis. À entrada da
terceira década do século XXI, vemos como estes momentos da história da
informação, mais demagógica ou mais sóbria, continuam a marcar a produção
noticiosa, tradicional ou digital, a traçar o prestígio das marcas e a conduta
das empresas que lhes dão abrigo.
A desinformação, a propaganda e a mentira fazem parte
da informação produzida e consumida desde que a sua massificação deu à luz com
o advento da imprensa. Não é isto que é novo. O que é realmente uma novidade é
a convivência no tempo e no espaço da ascensão incontrolável das redes sociais
como veículo informativo em competição desregulada com uma imprensa tradicional
em declínio. Este momento histórico, mesmo que sedeado em métodos ancestrais,
tem produzido efeitos absolutamente perversos à saúde das democracias e à
estabilidade da convivência social, projetando os seus resultados numa espiral
indomável de erosão do futuro próximo.
Encaramos já o facto com normalidade, mas vivemos numa
sociedade em vigilância permanente, controlada de fio a pavio, guardada perpetuamente
na produção maciça de dados. Pura e simplesmente deixou de haver separação
entre esfera pública e privada. Deixámos de ter direito à privacidade. E parte
da responsabilidade é nossa, que nos deixámos inebriar pelos encantos da
confissão permanente e da exibição entusiástica. Tudo se dilui num espaço
público partilhado ao segundo, num rasto digital à mercê de quem o quiser
manipular. Cada compra, cada visualização, cada retweet, é uma
confissão pública identitária, comportamental, definindo um perfil consumista.
A excentricidade amadora anda de braço dado com o lixo comercial direcionado. E
enquanto a atenção impera, a interpretação da verdade desespera.
No meio das nossas fragilidades, mascaradas de
exibicionismo em silos tribais inconciliáveis, somos carne para canhão de
máquinas sofisticadas de desinformação, mentiras, demagogia, proveitosas a
qualquer projeto político existencial.
Nos EUA, o modelo de negócio da Cambridge Analytica e
o advento da revolução trumpiana resultaram no casamento perfeito de
desconstrução do real, num momento-chave da história política americana: a
hipótese de a primeira mulher chegar à Casa Branca depois de o primeiro
afro-americano lá ter vivido. No Reino Unido, a saída ou não da União Europeia,
ofereceu às teorias da conspiração um singular momento de propagação, com
especial fervor para a mentira online em série produzida do
exterior, e para o papel da imprensa tradicional na propagação de mitos
políticos que acentuaram o medo e o tribalismo em setores cirurgicamente
trabalhados.
Nunca é demais recordar que uma deputada, Jo Cox, foi
barbaramente assassinada em plena campanha do referendo por um neonazi. Neste
"mundo tribal binário", como descreveu Charlie Sykes, um dos poucos
conservadores americanos arrependidos, os eleitores toleram comportamentos
bizarros, desonestidade e crueldade, apenas porque consideram o outro lado
sempre pior. O corolário aí está: nem a milésima mentira de Boris Johnson
inibiu os eleitores de lhe darem uma confortável vitória eleitoral nem a enésima
patifaria de Donald Trump parece vergar a sua base de fanáticos com vista à
reeleição. Estamos mais longe de distinguir a verdade da falsidade e a
demagogia da razão. É a paz social que paga, é a saúde das democracias que
definha.
A intromissão russa nas eleições americanas e no
referendo do Brexit não está apenas documentada e provada como é bem mais
profunda do que o mero aproveitamento de dois momentos políticos singulares. A
linguagem incendiária de Lenine, recordada por Victor Sebestyen em Lenin:
The Man, the Dictator, and the Master of Terror, permanece viva entre os
populistas do século XXI, os "neobolcheviques" como lhes chamou Anne
Applebaum, numa recusa inflexível do compromisso, num choque propositado entre
grupos sociais, na menorização de uns em função da superioridade identitária de
outros, na ilegitimidade dos adversários, terminando na imprensa tradicional
como "inimiga do povo". Não há descrição de Trump que melhor encaixe.
Como confessou Steve Bannon numa entrevista a Michael Lewis, "fomos
eleitos devido ao drain the swamp, lock her up, build a wall. Isto
foi puro ódio. Ódio e medo são o que levam as pessoas às urnas".
A receita alastrou. Jair Bolsonaro não precisou da
televisão nem dos jornais tradicionais para ser eleito presidente do Brasil,
bastou aproveitar o ódio contra o PT e potenciar a demagogia e a mentira entre
milhões que batem recordes de utilização das redes sociais. Os brasileiros
estão em terceiro do mundo no WhatsApp, em quarto no Facebook e em sexto no
Twiter. A construção de uma máquina de proliferação de mensagens
propagandísticas e de ataque continuado contra adversários, vistos como
inimigos, contrastou com a utilização tradicional feita por outros candidatos.
Mais uma vez, o ódio e o medo juntos conduziram os brasileiros às urnas. E à
vitória de Bolsonaro.
O fecho deste círculo apocalíptico está na redução do
Estado a pó, ou seja, das instituições e regras que têm sustentado as
democracias liberais. Sobre isto vale a pena lembrar o que disse Bannon
ao The Daily Beast, três anos antes da eleição de Trump:
"Lenine queria destruir o Estado e esse é, também, o meu objetivo. Eu
quero implodir tudo e destruir o establishment do
presente". Às vezes quando ouvimos o canto da sereia dos liberais mais
puros em Portugal percebemos porque vivem de amores com o trumpismo e o
bolsonarismo. Tudo isto poderia estar acantonado numa franja populista
enraivecida, não tivesse entretanto feito um caminho de contaminação do que
chamam "nova direita", que mais não é do que dar mau nome à boa moeda
do liberalismo sensato e da direita democrática, essenciais para preservar a
sanidade dos equilíbrios políticos, a modernização das instituições e a
concretização de indispensáveis reformas. A revolução leninista vive tanto à
esquerda como à direita.
Se o populismo ascensional pode ser combatido com a
demonstração transversal da maturidade democrática, a proliferação da mentira e
da demagogia deve ser travada com a emergência da verdade jornalística e da
seriedade na política. Orwell dizia que "o caos político está ligado à
decadência da linguagem", um espelho do presente que se impôs:
abrutalhadamente tuiteiro, abundantemente espalha-brasas. Trump é o fiel
exemplar do declínio da linguagem na política e da ética no espaço público. A
questão que se coloca, face ao aparente fatalismo, é saber se ainda vamos a
tempo de lhe restituir alguma decência no futuro?
Vai ser preciso que os seus agentes digam presente.
Uma moderação política aliada à feitura atempada de políticas públicas assente
em compromissos sociais alargados. Com uma mensagem política melhor trabalhada,
mais inspiradora que destruidora, que faça a ponte entre gerações e evite
atirá-las para um conflito desnecessário. Um jornalismo que reocupe um espaço
central na sociedade, indiferente se analógico ou digital, o que importa é a
qualidade do conteúdo, a seriedade do escrutínio que exerce aos poderes
públicos e privados, a qualidade da sua escrita. E, já agora, a estética do seu
produto.
Mas estas condições, desprovidas de recursos
indispensáveis, não produzem jornalismo, criam meros boletins informativos. Sem
um jornalismo que se imponha pela categoria do seu trabalho fica livre o
caminho para a proliferação desinformativa e demagógica à distância de um
smartphone. É preciso acabar com a ideia de que "em cada cidadão há um
jornalista", num tempo em que nunca foi tão importante salvaguardar a
separação de poderes, livrando a democracia liberal das mãos daqueles que a
querem implodir, cavalgando a onda digital descontrolada para destruírem a paz social,
o diálogo intergeracional e as instituições. Não há democracia no futuro sem
partidos sólidos que afastem as más práticas corruptivas do seu interior. Mas
nunca, como hoje, o jornalismo se tornou no barómetro do futuro das
democracias: ou cai com elas ou contribui para a sua regeneração. Mantenhamos
Lenine lá longe no mausoléu.
Bernardo Pires de Lima, DN, 26 de dezembro de 2019
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