Se o horror de Mariupol se
repetir em Kharkiv, em Kiev ou em qualquer outra grande cidade da Ucrânia, o
Ocidente não poderá continuar impassível
Manoulos Androulakis, cônsul da
Grécia em Mariupol, foi o último diplomata a abandonar a cidade, desejando que
“aquilo” que viu “nunca
mais ninguém venha a ver”. O Presidente da Ucrânia, Vlodomir
Zelenskii foi mais longe ao afirmar que “o terror que se vive na cidade será
recordado por muitos séculos”. Uma profecia que o cônsul grego corrobora, ao
comparar os bombardeamentos que danificaram 90% dos edifícios de Mariupol à
lista de cidades mártires da guerra da era industrial onde entram Coventry,
Dresden, Guernica ou Hiroxima.
A História confirmará ou não
estas comparações, mas o que se sabe de Mariupol é suficiente para se dizer que
a barbárie
das piores guerras europeias está de volta com a agressão da Rússia.
Se o horror de Mariupol se repetir em Kharkiv, em Kiev ou em qualquer outra
grande cidade da Ucrânia, o Ocidente não poderá continuar impassível. A Europa
não pode regressar aos seus tempos de continente selvagem.
Fotografias como as da capa da
edição do PÚBLICO de ontem, relatos de jornalistas sobre bombardeamentos de
teatros ou de hospitais legitimam as
acusações de Josep Borrell, alto-representante da União Europeia
para a Política Externa: a Rússia, diz Borrell, está a cometer “um crime de
guerra em massa” contra a população. Notícias de evacuações forçadas de civis
ou a recusa de abertura de corredores humanitários atribuídas às forças de
ocupação russas agravam o drama humano da cidade portuária. O Tribunal
Penal Internacional abriu uma investigação sobre estes alegados crimes.
Na guerra convém sempre ser
prudente na avaliação das informações, mas o que os jornalistas corajosos como
os da AFP, que ficaram na cidade até ao limite, nos dizem merecem muito mais
credibilidade do que a propaganda russa. O embaixador russo Gennady Gatilov
garantia, numa entrevista a
um canal francês, que as tropas do Kremlin estão a fazer tudo de
“forma muito delicada”. Uma mentira inaceitável.
Mariupol tornou-se símbolo de um
limite de tolerância com a barbárie, a fronteira na qual se estabelecem as linhas
vermelhas do respeito pela vida e dignidade humanas. É também o lugar onde se
desmascara o relativismo moral de tantos que se esforçam por encontrar zonas de
sombra para iluminar a Rússia e a sua invasão.
Como o major general Raul Cunha,
que, numa entrevista ao
jornal Setenta e Quatro, pergunta: “Qual o interesse dos russos em
matar os civis que estão em Mariupol, que até são a maioria russos?”. Pouco
importa que a sua pergunta reles tenha por base uma mentira – 59% dos
habitantes de Mariupol são ucranianos. Importa o reconhecimento conivente de
que em Mariupol a morte se pratica de uma forma “muito delicada”.

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