quarta-feira, 23 de março de 2022

A barbárie em Mariupol

Se o horror de Mariupol se repetir em Kharkiv, em Kiev ou em qualquer outra grande cidade da Ucrânia, o Ocidente não poderá continuar impassível

Manoulos Androulakis, cônsul da Grécia em Mariupol, foi o último diplomata a abandonar a cidade, desejando que “aquilo” que viu “nunca mais ninguém venha a ver”. O Presidente da Ucrânia, Vlodomir Zelenskii foi mais longe ao afirmar que “o terror que se vive na cidade será recordado por muitos séculos”. Uma profecia que o cônsul grego corrobora, ao comparar os bombardeamentos que danificaram 90% dos edifícios de Mariupol à lista de cidades mártires da guerra da era industrial onde entram Coventry, Dresden, Guernica ou Hiroxima.

A História confirmará ou não estas comparações, mas o que se sabe de Mariupol é suficiente para se dizer que a barbárie das piores guerras europeias está de volta com a agressão da Rússia. Se o horror de Mariupol se repetir em Kharkiv, em Kiev ou em qualquer outra grande cidade da Ucrânia, o Ocidente não poderá continuar impassível. A Europa não pode regressar aos seus tempos de continente selvagem.

Fotografias como as da capa da edição do PÚBLICO de ontem, relatos de jornalistas sobre bombardeamentos de teatros ou de hospitais legitimam as acusações de Josep Borrell, alto-representante da União Europeia para a Política Externa: a Rússia, diz Borrell, está a cometer “um crime de guerra em massa” contra a população. Notícias de evacuações forçadas de civis ou a recusa de abertura de corredores humanitários atribuídas às forças de ocupação russas agravam o drama humano da cidade portuária. O Tribunal Penal Internacional abriu uma investigação sobre estes alegados crimes.

Na guerra convém sempre ser prudente na avaliação das informações, mas o que os jornalistas corajosos como os da AFP, que ficaram na cidade até ao limite, nos dizem merecem muito mais credibilidade do que a propaganda russa. O embaixador russo Gennady Gatilov garantia, numa entrevista a um canal francês, que as tropas do Kremlin estão a fazer tudo de “forma muito delicada”. Uma mentira inaceitável.

Mariupol tornou-se símbolo de um limite de tolerância com a barbárie, a fronteira na qual se estabelecem as linhas vermelhas do respeito pela vida e dignidade humanas. É também o lugar onde se desmascara o relativismo moral de tantos que se esforçam por encontrar zonas de sombra para iluminar a Rússia e a sua invasão.

Como o major general Raul Cunha, que, numa entrevista ao jornal Setenta e Quatro, pergunta: “Qual o interesse dos russos em matar os civis que estão em Mariupol, que até são a maioria russos?”. Pouco importa que a sua pergunta reles tenha por base uma mentira – 59% dos habitantes de Mariupol são ucranianos. Importa o reconhecimento conivente de que em Mariupol a morte se pratica de uma forma “muito delicada”.

 

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