Há um
pseudoprovérbio chinês que é uma maldição e que deseja ao outro: “Que vivas em
tempos interessantes.” Não é chinês, mas a maldição é verdadeira. Estamos a
viver tempos interessantes e não são bons.
Aos olhos
da história, que provavelmente não tem olhos, há duas teses dominantes, que
parecem ter sido escritas, cada uma delas, por um filósofo grego. Do lado de
Heráclito de Éfeso, tudo está sempre a mudar, e nada se repete; do lado de
Parménides de Eleia, nada verdadeiramente muda e nada se move. Podemos
interpretar a guerra actual dos dois modos, mas os resultados não são muito
diferentes – há sinais que já vinham de antes e há surpresa, na fábrica da
história. A incerteza, a surpresa, a dificuldade de dizer onde tudo isto vai
parar, se é que pára, são dominantes. Mas, retrospectivamente, pode-se perceber
os sinais.![]()
O impacto
da brutalidade da invasão criou um movimento que mudará os termos da política
europeia, mas nem todos o perceberam. O encurralamento do PCP tem muito que ver
com a sua dificuldade em aceitar que a história de que o partido considera
fazer parte já não existe, mudou, e muito. A Rússia de Putin não é a URSS. É um
país de capitalismo corrupto e agressivo, e um país imperialista. O seu Governo
é autocrático e a elite à volta de Putin não tem a mínima consideração pelo
povo russo que explora nos seus recursos nacionais, e cujo sofrimento lhe é
irrelevante. Não há nenhum valor, seja da democracia, seja da liberdade, seja
do socialismo, que esteja presente na invasão da Ucrânia.
A posição
do PCP decorre de considerar que sem a Rússia não há travão ao imperialismo
americano. Foi sempre esta a razão para alguma das mais controversas posições
do PCP, como o apoio à invasão da Checoslováquia. Tudo o que pareça opor-se ao
imperialismo americano define o lado do PCP, seja em Cuba, na Venezuela, no
Irão, na China, ou na Coreia do Norte. É uma posição mecânica que deriva de uma
análise rudimentar, essencialmente geopolítica e que pouco tem que ver com a
realidade. E uma análise geopolítica, não é uma análise marxista…
Sim, há
imperialismo em muitos aspectos da política externa americana, no sentido de
conduzir uma política externa subordinada aos interesses económicos americanos,
sendo os EUA a maior potência militar do mundo. O melhor exemplo é a protecção
geoestratégica das fontes de energia na zona do Golfo e no Médio Oriente. Mas
muito desse imperialismo mudou e está muito enfraquecido. Trump abriu uma nova
era de isolacionismo, aliou-se com Putin, quebrou laços com a NATO e orientou a
sua política contra a China, deixando a Rússia fazer o que queria. E a probabilidade
de muito do legado de Trump vir de novo a condicionar a política externa
americana é muito real, com a possível vitória de um Partido Republicano muito
radical no seu “trumpismo”. Basta ver uma congressista republicana extremista
num encontro supremacista branco aos saltos, a gritar “Putin”, pouco antes da
invasão da Ucrânia.
Biden é o
exacto oposto, é um atlantista que quer reatar as relações com a Europa e
fortalecer a NATO, e, formado na Guerra Fria, vê a Rússia como um inimigo
sério. Os acontecimentos recentes estão a reforçar as suas opções políticas
europeias, e era difícil que o contrário acontecesse, quando uma Rússia
imperial invade um país soberano, com fronteiras com países da NATO, pondo a
independência deste em causa e ameaçando com uma guerra nuclear. Mas Biden tem
mantido limites na sua acção – por exemplo, recusando a proposta ucraniana de
criar uma zona de exclusão aérea que poria aviões da NATO a disparar contra
aviões russos. Ao mesmo tempo, Biden tem prosseguido uma política de muito
maior moderação com Cuba e o Irão. Presumo que o PCP não prefira
E, como
em tempo de guerra não se limpam armas, eu percebo muito bem que os países
europeus, que de há muito deveriam ter mantido uma maior autonomia defensiva
para modelarem a política americana na Europa, compreendam que, sem a NATO,
estariam completamente indefesos face ao imperialismo russo, que está à porta.
Putin conseguiu aquilo que ninguém pensava possível há uns meses, pôr, da
Suécia à Suíça, todos numa aliança contra a invasão da Ucrânia. Todas as
consequências que Putin não desejava vão-se realizar.
Depois,
há a Ucrânia. Convém não ter muitas ilusões que esteja em causa um combate
entre a democracia e a autocracia. Se fosse assim, já estaríamos em guerra com
a Arábia Saudita. A Ucrânia está longe de ser uma democracia perfeita, com uma
vida política turbulenta, uma extrema-direita nazi e corrupção endémica, de uma
ponta à outra da governação. Sim, a extrema-direita ucraniana é nazi, do mesmo
tipo, aliás, da extrema-direita russa, cuja agressividade nacionalista não as
diferencia. Por isso, o objectivo de “desnazificar” a Ucrânia é uma mistificação.
E quanto a oligarcas, a Ucrânia tem também a sua dose.
Sim, a
extrema-direita ucraniana é nazi, do mesmo tipo, aliás, da extrema-direita
russa. E quanto a oligarcas, a Ucrânia tem também a sua dose
Mas a
condição para se ser uma democracia e manter a liberdade, essa, sim, é um
combate que se trava na Ucrânia. Soberania, independência, liberdade são coisas
que vêm em pacote e que muitas vezes abrem caminho à democracia. Foi assim na
guerra da independência americana e de algum modo na Revolução Francesa. Pode
ser, com todas as reservas do “se”, que a participação popular na defesa do seu
país venha a dar origem a uma Ucrânia mais democrática. Seja como for, não é
com uma ocupação a ferro e fogo, como será inevitavelmente uma ocupação russa
da Ucrânia, que os ucranianos deixam de desejar liberdade, a liberdade de serem
donos do seu país. O pior para os ucranianos ainda está para vir, mas também o
pior para os russos também ainda está para vir.
(Continua)
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