sábado, 5 de março de 2022

Tempos interessantes (1)

Putin conseguiu aquilo que ninguém pensava possível há uns meses: pôr todos, da Suécia à Suíça, numa aliança contra a invasão da Ucrânia.

Há um pseudoprovérbio chinês que é uma maldição e que deseja ao outro: “Que vivas em tempos interessantes.” Não é chinês, mas a maldição é verdadeira. Estamos a viver tempos interessantes e não são bons.

Aos olhos da história, que provavelmente não tem olhos, há duas teses dominantes, que parecem ter sido escritas, cada uma delas, por um filósofo grego. Do lado de Heráclito de Éfeso, tudo está sempre a mudar, e nada se repete; do lado de Parménides de Eleia, nada verdadeiramente muda e nada se move. Podemos interpretar a guerra actual dos dois modos, mas os resultados não são muito diferentes – há sinais que já vinham de antes e há surpresa, na fábrica da história. A incerteza, a surpresa, a dificuldade de dizer onde tudo isto vai parar, se é que pára, são dominantes. Mas, retrospectivamente, pode-se perceber os sinais.

O impacto da brutalidade da invasão criou um movimento que mudará os termos da política europeia, mas nem todos o perceberam. O encurralamento do PCP tem muito que ver com a sua dificuldade em aceitar que a história de que o partido considera fazer parte já não existe, mudou, e muito. A Rússia de Putin não é a URSS. É um país de capitalismo corrupto e agressivo, e um país imperialista. O seu Governo é autocrático e a elite à volta de Putin não tem a mínima consideração pelo povo russo que explora nos seus recursos nacionais, e cujo sofrimento lhe é irrelevante. Não há nenhum valor, seja da democracia, seja da liberdade, seja do socialismo, que esteja presente na invasão da Ucrânia.

A posição do PCP decorre de considerar que sem a Rússia não há travão ao imperialismo americano. Foi sempre esta a razão para alguma das mais controversas posições do PCP, como o apoio à invasão da Checoslováquia. Tudo o que pareça opor-se ao imperialismo americano define o lado do PCP, seja em Cuba, na Venezuela, no Irão, na China, ou na Coreia do Norte. É uma posição mecânica que deriva de uma análise rudimentar, essencialmente geopolítica e que pouco tem que ver com a realidade. E uma análise geopolítica, não é uma análise marxista…

Sim, há imperialismo em muitos aspectos da política externa americana, no sentido de conduzir uma política externa subordinada aos interesses económicos americanos, sendo os EUA a maior potência militar do mundo. O melhor exemplo é a protecção geoestratégica das fontes de energia na zona do Golfo e no Médio Oriente. Mas muito desse imperialismo mudou e está muito enfraquecido. Trump abriu uma nova era de isolacionismo, aliou-se com Putin, quebrou laços com a NATO e orientou a sua política contra a China, deixando a Rússia fazer o que queria. E a probabilidade de muito do legado de Trump vir de novo a condicionar a política externa americana é muito real, com a possível vitória de um Partido Republicano muito radical no seu “trumpismo”. Basta ver uma congressista republicana extremista num encontro supremacista branco aos saltos, a gritar “Putin”, pouco antes da invasão da Ucrânia.

Biden é o exacto oposto, é um atlantista que quer reatar as relações com a Europa e fortalecer a NATO, e, formado na Guerra Fria, vê a Rússia como um inimigo sério. Os acontecimentos recentes estão a reforçar as suas opções políticas europeias, e era difícil que o contrário acontecesse, quando uma Rússia imperial invade um país soberano, com fronteiras com países da NATO, pondo a independência deste em causa e ameaçando com uma guerra nuclear. Mas Biden tem mantido limites na sua acção – por exemplo, recusando a proposta ucraniana de criar uma zona de exclusão aérea que poria aviões da NATO a disparar contra aviões russos. Ao mesmo tempo, Biden tem prosseguido uma política de muito maior moderação com Cuba e o Irão. Presumo que o PCP não prefira

E, como em tempo de guerra não se limpam armas, eu percebo muito bem que os países europeus, que de há muito deveriam ter mantido uma maior autonomia defensiva para modelarem a política americana na Europa, compreendam que, sem a NATO, estariam completamente indefesos face ao imperialismo russo, que está à porta. Putin conseguiu aquilo que ninguém pensava possível há uns meses, pôr, da Suécia à Suíça, todos numa aliança contra a invasão da Ucrânia. Todas as consequências que Putin não desejava vão-se realizar.

Depois, há a Ucrânia. Convém não ter muitas ilusões que esteja em causa um combate entre a democracia e a autocracia. Se fosse assim, já estaríamos em guerra com a Arábia Saudita. A Ucrânia está longe de ser uma democracia perfeita, com uma vida política turbulenta, uma extrema-direita nazi e corrupção endémica, de uma ponta à outra da governação. Sim, a extrema-direita ucraniana é nazi, do mesmo tipo, aliás, da extrema-direita russa, cuja agressividade nacionalista não as diferencia. Por isso, o objectivo de “desnazificar” a Ucrânia é uma mistificação. E quanto a oligarcas, a Ucrânia tem também a sua dose.

Sim, a extrema-direita ucraniana é nazi, do mesmo tipo, aliás, da extrema-direita russa. E quanto a oligarcas, a Ucrânia tem também a sua dose

Mas a condição para se ser uma democracia e manter a liberdade, essa, sim, é um combate que se trava na Ucrânia. Soberania, independência, liberdade são coisas que vêm em pacote e que muitas vezes abrem caminho à democracia. Foi assim na guerra da independência americana e de algum modo na Revolução Francesa. Pode ser, com todas as reservas do “se”, que a participação popular na defesa do seu país venha a dar origem a uma Ucrânia mais democrática. Seja como for, não é com uma ocupação a ferro e fogo, como será inevitavelmente uma ocupação russa da Ucrânia, que os ucranianos deixam de desejar liberdade, a liberdade de serem donos do seu país. O pior para os ucranianos ainda está para vir, mas também o pior para os russos também ainda está para vir.

(Continua)

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