Esta
manhã acordei no quarto da pensão modesta onde vivo e dirigi-me ao escritório
do meu editor para ultimar os preparativos da publicação do meu novo romance,
quando o editor disse que fora cancelada porque eu sou de Leste e, por isso,
russo. Quando dou por mim, estou num tribunal de menores, onde o advogado João
Nabais acusa-me de ser russo e chama a testemunha Nuno Rogeiro que explicou que
a Boémia, apesar de pertencente à Áustria-Hungria, fazia parte da esfera de
influência czarista, pelo que eu era russo, tendo depois dito que o meu nome
lembrava-lhe o Frank Zappa e, por isso, falou durante horas sobre as suas
bandas de rock sinfónico étnico preferidas. Eu, sem perceber o que me
acontecia, disse ao juiz Rui Fonseca e Castro que sou checo e não russo como o
Dostoiévski, o Tolstói ou o José Luís Peixoto que passa a vida na Coreia do
Norte, mas ele mandou-me calar, acusou-me de ser uma cobaia da vacina russa
contra a Covid-19 e condenou-me às galés, devendo remar para o resto da vida no
porão do iate do Roman Abramovich que esse sim, não é russo, mas beirão. Então
acordei e percebi que tinha sido tudo um pesadelo e que estava transformado
numa barata, mas pelo menos não fora cancelado, até notar que estava no ralo da
cozinha do Vladimir Putin porque eu era agora uma barata russa e acabei na sola
do sapato do José Milhazes. Então acordei desse segundo pesadelo sem sentido e
dei por mim transformado, por alguma razão imperscrutável e ininteligível, numa
traça russa a comer os diários do Álvaro Cunhal na biblioteca-museu do Pacheco
Pereira na Marmeleira. V.E.
EQUIPA O INIMIGO PÚBLICO

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