segunda-feira, 7 de março de 2022

Não digamos Kiév




A invasão russa da Ucrânia assenta numa negação, por parte de Putin, da identidade ucraniana como cultura separada da russa.

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Putin é um homem muito inteligente e tudo leva a crer que acredita naquilo que escreveu neste ensaio. É mais perigoso por causa disso. É mais fácil dizer que está maluco do que estar a ler o que vai na cabeça dele. Mas isso também é mais perigoso: não ler é sempre mais perigoso do que ler.

Imagine-se que um Putin espanhol se desse ao trabalho de escrever um ensaio histórico a dizer que Portugal é um prolongamento e uma emanação da Espanha e que, como tal, não faz sentido ser independente da Espanha.

Quando li Putin a dizer que o próprio nome da Ucrânia significa, em russo antigo, “periferia”, tive de ir à janela para descongelar o sangue.

Acredito nos pequenos gestos, até porque estão ao nosso alcance. Por exemplo, nós escrevemos e pronunciamos Kiev (a rimar com esqui-neve) seguindo a pronúncia russa. Os ucranianos dizem Kive (a rimar com tive).

Não poderíamos alterar o nome e a grafia da capital da Ucrânia para que seguisse a maneira como os ucranianos a pronunciam? Trata-se de um gesto de descolonização, feito por quem manda na língua portuguesa em Portugal, que somos nós.

Continuar a dizer Kiév, como faz o ex-colonizador que invadiu para poder voltar a colonizar a Ucrânia, é um desperdício.

 

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