A invasão russa da Ucrânia assenta numa negação, por parte de Putin, da identidade ucraniana como cultura separada da russa.
Putin é um homem muito inteligente e
tudo leva a crer que acredita naquilo que escreveu neste ensaio. É mais
perigoso por causa disso. É mais fácil dizer que está maluco do que estar a ler
o que vai na cabeça dele. Mas isso também é mais perigoso: não ler é sempre
mais perigoso do que ler.
Imagine-se que um Putin espanhol se
desse ao trabalho de escrever um ensaio histórico a dizer que Portugal é um
prolongamento e uma emanação da Espanha e que, como tal, não faz sentido ser
independente da Espanha.
Quando li Putin a dizer que o
próprio nome da Ucrânia significa, em russo antigo, “periferia”, tive de ir à
janela para descongelar o sangue.
Acredito nos pequenos gestos, até
porque estão ao nosso alcance. Por exemplo, nós escrevemos e pronunciamos Kiev
(a rimar com esqui-neve) seguindo a pronúncia russa. Os ucranianos dizem Kive
(a rimar com tive).
Não poderíamos alterar o nome e a
grafia da capital da Ucrânia para que seguisse a maneira como os ucranianos a
pronunciam? Trata-se de um gesto de descolonização, feito por quem manda na
língua portuguesa em Portugal, que somos nós.
Continuar a dizer Kiév, como faz o
ex-colonizador que invadiu para poder voltar a colonizar a Ucrânia, é um
desperdício.
Sem comentários:
Enviar um comentário