Nos seus entediantes solilóquios sobre História, o autocrata do Kremlin tem revelado alguns dos fantasmas que lhe povoam a cabeça.
A História russa é, porém, complexa e qualquer abordagem de poucos parágrafos
não passará de simplificação grosseira.
Aliás, a exemplo do que Putin tem feito nas suas “aulas” televisivas. Estas
enfatizam a referência a um longínquo “Rus” que teria agregado russos,
ucranianos e bielorrussos na mesma unidade política. De facto, os bizantinos
designavam genericamente por “Rus” as estruturas guerreiras escandinavas e
eslavas que se encontravam junto das suas fronteiras. Estas tinham traços
comuns mas não compunham uma unidade política. No tempo das cruzadas, os
muçulmanos também designavam todos os cristãos ocidentais por “francos”,
independentemente de estes serem flamengos, ingleses, germânicos ou sicilianos.
As estruturas da alta idade média não podem, pois, ser interpretadas de forma
tão simplista.
Ironicamente, o berço da que viria a ser chamada “Rússia branca” é precisamente o principado de Kiev (séc. IX), de origem escandinava e ligado ao império bizantino por laços comerciais, religiosos e culturais.
Durante séculos, esta foi a unidade mais sólida das comunidades enquadráveis no
conceito de “Rus”. No século XIII, o principado de Kiev sucumbiu à invasão
mongol liderada por Gengis Khan e parte dos seus habitantes migraram para o
território polaco. A invasão mongol dividiu assim os protoestados do Rus e foi
crucial para a sua evolução divergente. Quando, no século XV, Ivan III,
príncipe de Moscóvia, afirmou-se entre os seus pares como principal artífice da
libertação do domínio mongol, os laços com os russos que permaneceram a
ocidente eram já ténues. O fim do domínio mongol foi também ponto de partida
para o protagonismo dos príncipes de Moscóvia que, em finais do século XV,
assumiram o título de czar (césar), ambicionando sê-lo de “todas as rússias”.
Ou seja, a ideia defendida por Putin de um grande Rus politicamente estruturado
que integrou russos, ucranianos e bielorrussos tem pés de barro. Mais real foi
a inimizade dos czares com lituanos e polacos, que em 1610 estiveram às portas
de Moscovo e, sobretudo, com os suecos que, na segunda metade do século XVII,
estendiam o seu domínio sobre a Escandinávia, o Báltico e o norte da Alemanha.
Os nacionalistas russos celebram a vitória de Poltava (1709), em que o czar
Pedro, o Grande, derrotou o rei sueco Carlos XII, como o início do seu
protagonismo no espaço europeu.
Em finais do século XVIII, os czares conquistaram a zona da Crimeia, o que lhes
garantiu acesso a um porto de águas navegáveis durante todo o ano.
Este facto, junto com a anexação de parte da Polónia, da atual Ucrânia e do sul
do báltico (o norte já o tinha sido por Pedro I), marcou uma nova etapa da sua
expansão para ocidente.
Durante o tempo napoleónico, os russos derrotaram os suecos e ocuparam a
Finlândia. O seu século XIX foi ainda atravessado pela ideia de messianismo,
com os czares a reclamarem-se “protetores dos eslavos” e a interferirem na
política dos Balcãs, onde chocaram com otomanos e austríacos, e no Mediterrâneo
oriental, onde rivalizaram com franceses e ingleses.
A Grande Guerra foi traumática e originou a revolução de 1917 que depôs Nicolau
II. Nesse mesmo ano, a paz separada de Brest-Litovsk entre o império alemão e o
governo bolchevique obrigou a então ainda Rússia a abrir mão dos territórios
que controlava nas atuais Ucrânia, Polónia, Bielorrússia e Estados bálticos.
Curiosamente, esta paz, que o nacionalismo russo considera humilhante, foi
assinada em território da atual Bielorrússia, o mesmo Estado onde Putin quer as
“negociações” com a Ucrânia.
A revolução russa de 1917 e, no fim da Grande Guerra, a queda dos impérios
centrais motivaram a declaração de independência dos territórios ucranianos.
Mas estes não resistiram às lutas internas e à incursão do exército vermelho,
acabando integrados na URSS (1922). Tal como outras repúblicas soviéticas, a
Ucrânia sofreu purgas e massacres às mãos de Estaline. Os nostálgicos do tempo
soviético preferem ignorar estes factos e antes evocar a vitória na
“guerra patriótica” contra os nazis. Ao fim de anos de sofrimento atroz, esta
guerra permitiu à URSS recuperar parte dos territórios cedidos em Brest-Litovsk.
O que estes nostálgicos de memória seletiva também pretendem esquecer, é que a
“guerra patriótica” foi antecedida do pacto germano- -soviético (agosto de
1939), que integrou um protocolo secreto a dividir esferas de influência entre
soviéticos e nazis. Na cabeça de Estaline, os nazis mereceram então ser
derrotados não tanto pelas suas atrocidades, mas sobretudo por o terem traído
(invasão da URSS, 1941). Para muitos dos que ainda suspiram pela URSS, o maior
“traidor” é porém Gorbatchov, isto por ter contribuído para derrubar muros,
para libertar o mundo da ameaça de uma guerra nuclear, e para que os Estados e
territórios do antigo Pacto de Varsóvia pudessem decidir o seu futuro. É um
estranho conceito de traição.
Passe a redundância, a História é passado. É fonte de conhecimento, mas não
pode sobrepor-se à vontade dos cidadãos, muito menos ser ponto de partida para
justificar vinganças e ambições. Os fantasmas que atormentam Putin nunca deviam
ter saído da sua cabeça.
Desgraçadamente, tornaram-se bem reais.
Lourenço Pereira Coutinho, Expresso Semanário, 4 de março de 2022
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