A terrível
invasão russa da Ucrânia, no dia 24 de fevereiro, tem sido vista como um ponto
de viragem crítico na história mundial. Muitos disseram que marca
definitivamente o fim da era pós-guerra fria, um retrocesso da “Europa inteira
e livre” que pensámos ter surgido após 1991, ou mesmo, o fim do fim da
História.
Ivan
Krastev, um astuto observador dos acontecimentos a leste do Elba, afirmou
recentemente no “The New York Times” que “estamos todos a viver no mundo de
Vladimir Putin agora”, um mundo onde a força bruta atropela o Estado de direito
e os direitos democráticos.
Não há
dúvida de que o ataque russo tem implicações que ultrapassam as fronteiras da
Ucrânia. Putin deixou claro que pretende reconstruir o máximo possível da
antiga União Soviética, incorporando a Ucrânia na Rússia e criando uma esfera
de influência que se estende por todos os estados da Europa Oriental que
aderiram à NATO a partir da década de 90.
Embora
seja ainda demasiado cedo para saber como esta guerra irá evoluir, é já claro
que Putin não será capaz de atingir os seus objetivos máximos. Esperava uma
vitória rápida e fácil e que os ucranianos o tratassem como um libertador. Em
vez disso, remexeu num ninho de vespas zangadas, com ucranianos de todas as
fações a mostrarem um grau de tenacidade e de unidade nacional sem precedentes.
Mesmo que Putin tome Kiev e deponha o Presidente Volodymyr Zelensky, não
conseguirá, a longo prazo, subjugar uma nação furiosa de mais de 40 milhões com
força militar. E enfrentará um mundo democrático e uma aliança da NATO
unificada e mobilizada como nunca antes visto, que impôs sanções dispendiosas à
economia da Rússia.
Ao mesmo
tempo, a atual crise demonstrou que não podemos tomar por garantida a atual
ordem mundial liberal. É algo para o qual temos de lutar constantemente e que
desaparecerá no momento em que baixarmos a nossa guarda.
Os
problemas enfrentados pelas sociedades liberais de hoje não começaram e não
terminam com Putin, e enfrentaremos desafios muito sérios, mesmo que ele seja
travado na Ucrânia. O liberalismo tem estado sob ataque há algum tempo, tanto
por parte da direita como da esquerda. A Freedom House, no seu inquérito sobre
a “Liberdade no mundo” para 2022, nota que a liberdade global caiu no total
durante 16 anos consecutivos. Caiu não apenas devido à ascensão de poderes autoritários
como a Rússia e a China, mas também devido à mudança para o populismo, o
antiliberalismo e o nacionalismo no seio de democracias liberais de longa data,
como os Estados Unidos e a Índia.
O QUE É O
LIBERALISMO?
O
liberalismo é uma doutrina, enunciada pela primeira vez no século XVII, que
procura controlar a violência diminuindo as expectativas da política. Reconhece
que as pessoas não concordarão com as coisas mais importantes — como a religião
que deve ser seguida —, mas que precisam de tolerar que os seus concidadãos
tenham opiniões diferentes das suas.
Faz isto
respeitando a igualdade de direitos e dignidade dos indivíduos, através de um
Estado de direito e de um Governo constitucional que verifica e equilibra os
poderes dos Estados modernos. Entre esses direitos estão o direito à
propriedade privada e o direito a efetuar transações livremente, razão pela
qual o liberalismo clássico esteve fortemente associado a elevados níveis de
crescimento económico e prosperidade no mundo moderno. Além disso, o
liberalismo clássico estava tipicamente associado à ciência natural moderna e à
visão de que a ciência poderia ajudar-nos a entender e a manipular o mundo
externo em nosso próprio benefício.
Muitos
desses fundamentos estão agora sob ataque. Os conservadores populistas
ressentem intensamente a cultura aberta e diversificada que prospera nas
sociedades liberais e anseiam por uma época em que todos professavam a mesma
religião e partilhavam a mesma etnia. A Índia liberal de Gandhi e Nehru está a
transformar-se num estado hindu intolerante sob o Governo de Narendra Modi,
primeiro-ministro indiano; entretanto, nos Estados Unidos, o nacionalismo
branco é abertamente celebrado em grupos dentro do Partido Republicano. Os
populistas irritam-se com as restrições impostas pela lei e pelas
constituições: Donald Trump recusou-se a aceitar o veredicto das eleições de
2020 e uma multidão violenta tentou alterá-lo diretamente, atacando o
Capitólio. Os republicanos, em vez de condenarem esta tentativa de agarrar o
poder, alinharam em grande parte com a grande mentira de Trump.
Os
valores liberais da tolerância e da liberdade de expressão também foram
desafiados pela esquerda. Muitos progressistas sentem que a política liberal,
com o seu debate e a construção de consensos, é demasiado lenta e falhou
gravemente em resolver as desigualdades económicas e raciais que surgiram como
resultado da globalização. Muitos progressistas mostraram-se dispostos a
limitar a liberdade de expressão e o devido processo em nome da justiça social.
Tanto a
direita como a esquerda antiliberais juntam-se na sua desconfiança
relativamente à ciência e à experiência. À esquerda, uma linha de pensamento
estende-se desde o estruturalismo do século XX, através do pós-modernismo, até
a teoria crítica contemporânea que questiona a autoridade da ciência. O
filósofo francês Michel Foucault argumentou que as elites obscuras usavam a
linguagem da ciência para esconder o domínio de grupos marginalizados, como os
homossexuais, os doentes mentais ou os prisioneiros.
Esta
mesma desconfiança relativamente à objetividade da ciência passou agora para a
extrema-direita, onde a identidade conservadora gira cada vez mais em torno do
ceticismo em relação às vacinas, às autoridades de saúde pública e à
experiência de um modo mais geral.
Entretanto,
a tecnologia estava a ajudar a reduzir a autoridade da ciência. A internet foi
inicialmente celebrada pela sua capacidade de contornar guardiões hierárquicos,
como governos, editores e meios de comunicação tradicionais. Mas este novo
mundo acabou por ter uma grande desvantagem, uma vez que intervenientes
malévolos da Rússia aos conspiradores do QAnon utilizaram esta nova liberdade
para espalhar a desinformação e o discurso de ódio. Estas tendências foram
incentivadas, por sua vez, pelo interesse próprio das plataformas grandes da
internet que prosperaram não em informação de confiança mas na sua viralidade.
COMO O
LIBERALISMO EVOLUIU PARA ALGO ANTILIBERAL
Como é
que chegámos a este ponto? No meio século que se seguiu à Segunda Guerra
Mundial, houve um consenso amplo e crescente em torno do liberalismo e de uma
ordem mundial liberal.
O
crescimento económico descolou e a pobreza diminuiu à medida que os países
beneficiavam de uma economia global aberta. Isto incluiu a China, cuja
reemergência moderna foi possibilitada pela sua vontade de jogar pelas regras
liberais tanto interna e externamente.
Mas o
liberalismo clássico foi reinterpretado ao longo dos anos e evoluiu para
tendências que, no fim, se revelaram autoincapacitantes. À direita, o
liberalismo económico dos primeiros anos do pós-guerra transformou-se, durante
os anos 80 e 90, no que por vezes é designado “neoliberalismo”. Os liberais
entendem a importância dos mercados livres — mas sob a influência de
economistas como Milton Friedman e a chamada ‘escola de Chicago’, os mercados
eram adorados e o Estado era cada vez mais demonizado como inimigo do
crescimento económico e das liberdades individuais.
As
democracias avançadas, sob o feitiço das ideias neoliberais, começaram a
afastar o Estado e a regulamentação em matéria de segurança social e
aconselharam os países em desenvolvimento a fazer o mesmo no âmbito do
“Consenso de Washington”. Os cortes na despesa social e em sectores estatais
removeram os tampões que protegiam os indivíduos dos caprichos do mercado,
levando a grandes aumentos nas desigualdades nas últimas duas gerações.
Embora
algumas destas reduções da despesa tenham sido justificadas, foram levadas a
extremos e levaram, por exemplo, à desregulamentação dos mercados financeiros
dos EUA nas décadas de 80 e 90 que os desestabilizaram e provocaram crises
financeiras, como o colapso do subprime em 2008. O culto da eficiência levou à
terceirização de empregos e à destruição de comunidades da classe trabalhadora
em países ricos, que serviu de base para a ascensão do populismo na década de
2010.
A direita
valorizou a liberdade económica e empurrou-a para extremos insustentáveis. A
esquerda, pelo contrário, concentrou-se na escolha individual e na autonomia,
mesmo à custa das normas sociais e da comunidade humana. Esta visão minou a
autoridade de muitas culturas tradicionais e instituições religiosas. Ao mesmo
tempo, os teóricos críticos começaram a argumentar que o próprio liberalismo
era uma ideologia que mascarava o interesse próprio dos seus defensores, se
estes fossem homens, europeus, brancos ou heterossexuais.
Tanto à
direita como à esquerda, as ideias liberais fundamentais foram empurradas para
extremos que, em seguida, corroeram o valor percebido do próprio liberalismo. A
liberdade económica evoluiu para uma ideologia antiestatal e a autonomia
pessoal evoluiu para uma “desperta” [woke, no original] visão progressiva do
mundo que celebrava a diversidade numa cultura partilhada. Estas mudanças
produziram então a sua própria reação negativa, onde a esquerda culpou o
próprio capitalismo pela crescente desigualdade, e a direita viu o liberalismo
como um ataque a todos os valores tradicionais.
O
CONTEXTO GLOBAL
O
liberalismo é mais valorizado quando as pessoas vivenciam a vida num mundo não
liberal. A própria doutrina surgiu na Europa após os 150 anos de guerra
religiosa constante que se seguiram à Reforma Protestante. Renasceu na
sequência das destrutivas guerras nacionalistas da Europa no início do século
XX. Uma ordem liberal foi institucionalizada sob a forma da União Europeia e a
ordem global mais ampla de comércio aberto e investimento criada pelo poder dos
Estados Unidos. Recebeu um grande impulso entre 1989 e 1991 quando o comunismo
entrou em colapso e as populações que viviam sob o seu domínio foram livres de
moldar o seu próprio futuro.
Contudo,
mais de uma geração passou agora desde a queda do Muro de Berlim e as virtudes
de viver num mundo liberal foram dadas como certas por muitos. A memória das
guerras destrutivas e da ditadura totalitária desvaneceu-se, especialmente para
os jovens na Europa e na América do Norte.
Neste
novo mundo, a UE, que conseguiu espetacularmente impedir a guerra europeia, era
agora vista por muitos à direita como tirânica, enquanto os conservadores
argumentaram que as normas do Governo para todos usarem máscaras e serem
vacinados contra a covid-19 eram comparáveis à forma como Hitler tratou os
judeus. Isto é algo que só poderia acontecer numa sociedade segura e
complacente que não tivesse tido experiência de ditadura real.
Além
disso, o liberalismo pode ser pouco inspirador para muitas pessoas. Uma
doutrina que deliberadamente diminui as expectativas da política e que impõe a
tolerância de diversas opiniões muitas vezes não satisfaz aqueles que querem
uma comunidade forte baseada em visões religiosas partilhadas, etnia comum ou
fortes tradições culturais.
Neste
vazio entraram regimes autoritários não liberais. Os da Rússia, China, Síria,
Venezuela, Irão e Nicarágua têm pouco em comum, além do facto de não gostarem
da democracia liberal e quererem manter o seu próprio poder autoritário.
Criaram uma rede de apoio mútuo que permitiu, por exemplo, a sobrevivência do
regime desprezível de Nicolás Maduro em Caracas, apesar de ter levado mais de
um quinto da população da Venezuela ao exílio.
No centro
desta rede está a Rússia de Putin, que forneceu armas, conselheiros, militares
e serviços de informação a praticamente qualquer regime, independentemente do
quão terrível fosse para o seu próprio povo, que se opõe aos Estados Unidos ou
à UE. Esta rede estende-se ao coração das próprias democracias liberais. Os populistas
de direita manifestam admiração por Putin, começando pelo antigo Presidente
americano, Trump, que disse que Putin era um “génio” e “muito astuto” após a
sua invasão da Ucrânia.
Os
populistas, incluindo Marine Le Pen e Eric Zemmour, em França, Matteo Salvini,
em Itália, Jair Bolsonaro, no Brasil, os líderes da AfD, na Alemanha, e Viktor
Orbán, na Hungria, mostraram solidariedade por Putin, um líder “forte” que age
decisivamente para defender os valores tradicionais sem considerar coisas
mesquinhas como leis e constituições.
O mundo
liberal trouxe enormes aumentos na igualdade de género e tolerância para os
gays e lésbicas nas últimas duas gerações, o que provocou alguns no direito de
adorar a força masculina e a agressão como virtudes em si mesmas.
O
ESPÍRITO DE 1989 NÃO ESTÁ MORTO
É por
isso que a atual guerra na Ucrânia é importante para todos nós. A agressão e
bombardeamento não provocado por parte da Rússia às cidades pacíficas Kiev e
Kharkiv [Carcóvia] na Ucrânia lembrou às pessoas da forma mais vívida possível
quais são as consequências de uma ditadura não liberal.
A Rússia
de Putin é claramente vista não como um Estado com queixas legítimas sobre a
expansão da NATO, mas como um país ressentido e revanchista empenhado em
reverter toda a ordem europeia pós-1991. Ou melhor, é um país com um único
líder obcecado com o que acredita ser uma injustiça histórica que vai tentar
corrigir, não importando o custo que terá para o seu próprio povo.
O
heroísmo dos ucranianos que se mobilizam em torno do seu país e que lutam
desesperadamente contra um inimigo muito maior inspirou pessoas em todo o
mundo. O Presidente Zelensky passou a ser visto como um líder modelo, corajoso
sob fogo não metafórico, mas real, e uma fonte de unidade para uma nação
anteriormente fraturada. A posição solitária da Ucrânia, por sua vez, provocou
um notável ressurgimento do apoio internacional. Cidades em todo o mundo
engalanaram-se com bandeiras ucranianas azuis e douradas e prometeram apoio
material.
Contrariamente
aos planos de Putin, a NATO emergiu mais forte do que nunca, com a Finlândia e
a Suécia a pensarem agora em aderir. A mudança mais notável ocorreu na
Alemanha, que anteriormente era o maior amigo da Rússia na Europa. Ao anunciar
uma duplicação do Orçamento alemão para a defesa e a vontade de fornecer armas
à Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz inverteu décadas de política externa alemã e
atirou o seu país incondicionalmente para a luta contra o imperialismo de
Putin.
Embora
seja difícil ver como Putin conseguirá alcançar os seus maiores objetivos de
uma Rússia superior, ainda temos um longo e desanimador caminho a percorrer.
Putin ainda não mobilizou toda a força militar que tem à sua disposição. Os
defensores da Ucrânia estão exaustos e a ficar sem alimentos e munições. Será
uma corrida entre a Rússia reabastecer as suas próprias forças e a NATO tentar
reforçar a resistência ucraniana. À medida que a Rússia duplica a aposta, as
cidades ucranianas sofrem bombardeamentos indiscriminados e tragicamente estão
a assemelhar-se a lugares, como Grozny, na Chechénia, que sofreram
bombardeamentos russos semelhantes na década de 90. Existe também o perigo de
escalada dos combates para confrontos diretos entre a NATO e a Rússia, ao mesmo
tempo que se apela a uma zona de “exclusão aérea”. Mas serão os ucranianos que
irão suportar o custo da agressão de Putin e quem lutará em nome de todos nós.
As
dificuldades do liberalismo não irão acabar mesmo que Putin perca. A China
estará à espreita, bem como o Irão, a Venezuela, Cuba e os populistas dos
países ocidentais. Mas o mundo terá aprendido qual é o valor de uma ordem
mundial liberal e que não sobreviverá a menos que as pessoas lutem por ela e
mostrem que se apoiam mutuamente. Os ucranianos, mais do que qualquer outro
povo, mostraram o que é a verdadeira bravura e que o espírito de 1989 permanece
vivo no seu canto do mundo. Para o resto de nós, tem estado adormecido e está a
despertar.
Francis Fukuyama, Revista E,
Expresso, 18 de março de 2022
Artigo originalmente publicado no “Financial Times”
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