O herói não é, não pode ser
nunca, quem invade o vizinho mais fraco à míngua de outros argumentos e leva a
morte, a destruição e o terror a terra alheia. Não pode ser, pois, Vladimir
Putin, que diz que russos e ucranianos são um mesmo povo e que, todavia,
bombardeia e põe em fuga esse “mesmo povo”. As razões que tinha ou que julgava
ter por força da história ou do direito perdeu-as por força dos canhões e dos
tanques. E o resto fazem-no as imagens que todos os dias chegam às casas do
mundo inteiro: porque se qualquer guerra tem como consequência cidades
bombardeadas, crianças e velhos mortos ou em fuga, esta tem a diferença de ser
filmada de perto e a cores, dia a dia e à medida que vai acontecendo.
Mas o herói também não é o
celebrado Volodymyr Zelensky, com a sua T-shirt militar e os seus discursos
“patrióticos”, usando com mestria os seus dotes de actor e com indisfarçada
vaidade (e sucesso, dos Comuns ao Facebook) a sua veleidade de ser tomado pelo
Churchill do século XXI. Até agora, enquanto as mulheres e crianças fogem e os
homens, civis e militares, tentam deter as tropas russas, ele, entrincheirado
no seu bunker, a fazer tweets e vídeos e a apelar à terceira guerra mundial,
tem sido um herói à medida destes tempos sem heróis verdadeiros e com heróis
instantâneos. Mas, a menos que muito me engane, não me espantaria que, se a
guerra for para continuar e os russos entrarem em Kiev, o herói Zelensky será
capaz de desiludir muitos corações. Não é Churchill quem quer.
Zelensky parece agora finalmente
disposto a negociar com Putin e a negociação, se não foi entretanto cancelada,
irá já a nível de ministros dos Estrangeiros. Devemos a Israel, à Turquia e, em
parte, à China esse esforço de intermediação capaz de sentar as partes à mesa.
Nada o devemos aos Estados Unidos, à União Europeia ou à ONU, como eu sempre o
escrevi: nem antes nem agora. Isto merece ficar registado: temos uma guerra na
Europa com um potencial de alastramento como nunca antes em 70 anos, com
efeitos económicos devastadores sobre o continente, com talvez uns cinco
milhões de refugiados que tudo perderam, e, apesar disso, a Europa, enquanto
tal, não mexeu uma palha para evitar o conflito ou para tentar pará-lo, uma vez
iniciado. As melhores cabeças pensantes da Europa escrevem rios de tinta sobre
o recomeço da História e da Guerra Fria, sobre a nova realidade geopolítica,
sobre a necessidade de uma verdadeira política de rearmamento europeu, sobre a
urgência em asfixiar a Rússia (e os russos) com sanções económicas e banir da
face visível do planeta todos os russos — e não apenas os oligarcas ou os
íntimos de Putin, mas também músicos, artistas, desportistas, cientistas. Mas
sobre uma estratégia de paz e segurança mútua que envolva todos e inclua a
Rússia nada, nem uma consideração, nem uma palavra.
Porém, não deixa de ser curioso
que Zelensky aceite agora negociar, e com base nas propostas russas, o que
poderia ter negociado antes da invasão. Penskov, o porta-voz do Kremlin,
enumerou na segunda-feira o que querem os russos: a NATO fora da Ucrânia e a
alteração da Constituição ucraniana, que prevê expressamente essa adesão; a
“desmilitarização” da Ucrânia, o que significa que ela não estacionará no seu
território armas nucleares; a “desnazificação” da Ucrânia, o que equivale a
expulsar das suas Forças Armadas os batalhões nazis que Zelensky lá integrou;
um estatuto de independência ou similar para as regiões de maioria russa do
Donbas, e o reconhecimento de jure da Crimeia como parte da Rússia, como
historicamente quase sempre o foi. Sobre todos estes pontos, e a menos que
entretanto tenha voltado atrás, Zelensky já aceitou ceder em parte deles e
negociar noutros. A pergunta que se coloca, então, é esta: porque não o fez
antes, quando era isto justamente que a Rússia propunha? Porque não o fez para
evitar a invasão do seu país e não ter de assistir a tantos mortos, tanta
destruição, tantas famílias em fuga? Porque diz agora que a adesão à NATO é um
projecto inexequível e antes foi a Munique exigi-la imediatamente? Será porque
antes ouviu todos os países da NATO repetirem que a Ucrânia tinha o direito de
decidir livremente o seu destino, mesmo que isso pudesse conduzir a uma guerra
com a Rússia, que se sentia ameaçada com o alastramento da NATO à Ucrânia? E
será porque se sentiu confortado e iludido por essas proclamações que ele
passou estes dias de guerra a apelar ao envolvimento da NATO, a reclamar o
fecho do espaço aéreo da Ucrânia aos aviões russos e a queixar-se de que estava
sozinho a “defender a liberdade do Ocidente”?
“A liberdade tem um preço”, disse
Joe Biden, e tem toda a razão. Mas o preço da liberdade não pode ser o fim de
tudo, que fatalmente incluiria também o fim da liberdade: não há liberdade
quando tudo estiver morto. Por isso o Ocidente teve o bom senso mínimo de não
ceder aos apelos de intervenção de Zelensky, que teriam, com toda a
probabilidade, conduzido, por descontrole, por escalada ou por acidente, a uma
guerra nuclear. Na crise dos mísseis em Cuba, em 1962, Fidel Castro também
apelou a Moscovo para que desencadeasse um ataque nuclear contra os Estados
Unidos, mas, felizmente, também o bom senso prevaleceu entre os russos. A lição
é que há sempre loucos disfarçados de heróis de ambos os lados, que acham que o
seu lugar na história é mais importante do que o destino dos outros — mesmo que
depois não sobrem muitos para contar a história. É por isso, entre outras
coisas, que isto de ver as situações a preto e branco — nós somos o Bem e eles
o Mal — é o caminho mais certo para o desastre. É curioso observar que no meio
desta unanimidade quase religiosa como esta crise tem sido analisada do lado de
cá (do lado dos Bons), por analistas, historiadores, jornalistas, comentadores,
quem mais destoa da opinião formatada são os militares, tradicionalmente vistos
como os mais pró-guerra. O exemplo mais visível, porque mais exposto, foi o do
Chefe do Estado-Maior da Armada alemã, quando ousou dizer que Putin tinha
razões que deviam e mereciam ser ouvidas, e, portanto, foi imediatamente
demitido.
Em Lisboa já vi bandeiras da
Ucrânia hasteadas nas janelas dos prédios, como outrora, a pedido de Scolari e
a propósito do futebol, se hastearam bandeiras portuguesas. O presidente do
Benfica fez a capa da “Bola” embalando caixas de conservas para a Ucrânia, numa
acção de solidariedade das muitas que, e ainda bem, estão em curso. Em
Bruxelas, na sede da UE, as bandeiras dos 27 foram substituídas por 27
bandeiras da Ucrânia e imagino que as contas das redes sociais das celebridades
estejam infestadas das ditas, vestidas de azul e amarelo. É tudo muito bonito,
muito fácil e absolutamente ineficaz para o que interessa. Alguém, que tinha
obrigação de estar informado, perguntava-me há dias se a subida vertiginosa do
preço dos combustíveis tinha mesmo que ver com a guerra na Ucrânia ou se era
uma manobra do Governo. Deixem que passe a fase dos gestos bonitos e fáceis e
vão ver o que aí vem. Deixem que a guerra continue, que a paz falhe, e vão
perceber quem é que vai sair arrasado desta guerra, para além dos ucranianos, e
quem é que vai sair a ganhar biliões. Mais uma vez, porém, não precisamos de
uma explicação a preto e branco, mas apenas de aproveitar uma oportunidade de
reflexão, a benefício de tempos vindouros.
E depois da guerra e da poeira
assente haveremos também, espero, de ter ocasião de reflectir sobre a mais
parcial, incompetente e prejudicial cobertura noticiosa e analítica de um
conflito a que alguma vez assisti do lado a que chamam as “democracias
liberais”. Desde o sagrado “The Guardian” até à nossa imprensa. Pela primeira
vez, e pacificamente aceite, o Conselho Europeu estabeleceu a censura sobre
órgãos de informação do “outro lado” (as TV russas), com o argumento de que
divulgavam informação enganosa que nos podia desinformar. Ocultou-se ou
minimizou-se informação que podia prejudicar a imagem do “heróico” povo
combatente e do Exército e autoridades ucranianas, tais como episódios de
racismo ou de abusos sobre prisioneiros de guerra russos. E foi patente um
clima de intimidação sobre quem ousou questionar a verdade única ou pensar
diferente, que eu próprio tive a honra de experimentar. (Na Rádio Observador,
por exemplo, o José Manuel Fernandes chamou-me “idiota útil ao serviço da
propaganda de Putin”, o que em nada me afecta, porque, ao contrário dele, eu
não sou nem nunca fui de direita ou de extrema-direita, nem maoista, leninista
ou estalinista, e nem fui, como ele, idiota útil ao serviço da propaganda da
NATO e do pateta do Bush filho, aquando da invasão do Iraque para supostamente
encontrar armas de destruição maciça, de cuja existência não havia quaisquer
provas. Isto de pensar pela própria cabeça incomoda sempre os idiotas que se
imaginam úteis.)
Miguel Sousa Tavares, Expresso, 11 de março de 2020
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
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