“Ah! Se
os homens pudessem somente persuadir-se que a força não está na força, mas na
verdade! “ (Tolstoi) – Cortado pela Censura
A Censura
durou ininterruptamente 48 anos da ditadura. A PIDE e a polícia atacavam os
corpos, a Censura atacava as cabeças. “Fazer” as cabeças necessita de tempo,
poder, proibições, ameaças, violências diversas, matilhas de vigilância, medo e
autocensura, mas “desfazê-las” é muito mais difícil. Isso significa que a
“obra” da Censura ainda está connosco, sem reconhecermos a sua assinatura
sinistra, o que a torna mais poderosa. A essa marca inconsciente de 48 anos,
que os quase 50 anos de democracia não conseguiram eliminar, somam-se agora
novos impulsos censórios vindos também das instituições, mas também “de baixo”,
do activismo político à esquerda e à direita, e das redes sociais. É por isso
mesmo que falar e mostrar a Censura (na verdade um complexo de censuras para os
livros, os periódicos, para a música, o teatro, os filmes, a publicidade, tudo
o que podia mexer com as cabeças) é a melhor pedagogia cívica nos nossos dias.
A essa
marca inconsciente que os quase 50 anos de democracia não conseguiram eliminar,
somam-se agora novos impulsos censórios vindos também das instituições, mas
também “de baixo”, do activismo político à esquerda e à direita e das redes
sociais
Na
verdade, sendo a Censura poderosa pelo rastro de interditos e “inconveniências”
que deixou – um exemplo recente é falar das crises
estudantis dos anos 60-70 como se fossem apenas movimentos
espontâneos de revolta, minimizando o papel decisivo das organizações políticas
clandestinas, o PCP e os grupos esquerdistas, acabando por as “despartidarizar”
como se o papel dos partidos “manchasse” o valor dos eventos –, é também a mais
fácil de denunciar, quando se vai à sua realidade. E isso significa ir muito
para além da acção contra o explícito político, e ter uma concepção holística
da Censura.
É o que,
integrado nas comemorações de Abril da Câmara Municipal de Lisboa e com o seu
apoio, a exposição que será inaugurada na próxima semana em Lisboa com
materiais das censuras do Arquivo Ephemera vai tentar fazer. A exposição estará
no Edifício do Diário de Notícias, por debaixo das grandes pinturas murais de
Almada, incluindo a que ilustra este artigo. A sua citação titular é de
Salazar, um activo mentor e legitimador da Censura, mas duas frases, entre
milhares produzidas de 1926 a 1974, retratam a “obra” da Censura e pouco
importa sobre que livros ou autores foram escritas:
“parece
que o autor esteve em qualquer vila, ou aldeia, e escolheu para protagonista do
seu romance a família mais asquerosa do povoado”
“as obras
destes autores não devem ser consentidas em agremiações operárias, por razões
óbvias”
As
“razões óbvias” explicam tudo. Visitemos o arranque e a moldagem da Censura nos
anos 30 que a fez como existiu até 1974. O conflito entre a Itália e a Etiópia
não podia ser comentado, porque isso era “propaganda antifascista”, do mesmo
modo que não se podiam fazer “referências menos respeitosas para com o Chefe do
Governo Alemão”, Adolfo Hitler. Aliás, condenar a invasão da Etiópia era
proibido por “antibelicismo”. Como “propaganda inconveniente” eram cortadas as referências
a “António José da Silva (O Judeu)” queimado pela Inquisição. Duarte Nuno de
Bragança não podia ser identificado como pretendente ao trono português, mas a
restauração da monarquia na Grécia era cuidadosamente protegida de dichotes.
Corrupção
não havia e as negociatas da Sociedade dos Açúcares eram “cortadas totalmente”.
Em Espanha podia-se falar de “escândalos”, por cá não. Violências também não, o
país tinha “brandos costumes”. Por exemplo, não se podia saber que em Peniche
um “motim”, provocado por protestos contra a prisão de pescadores que pescavam
com dinamite, teve dois mortos. Violência sobre as mulheres, infanticídio,
aborto, pedofilia, violações – tudo cortado.
A
religião era intocável e a Censura escondia dezenas de conflitos anticlericais.
A queixa de um missionário sobre as dificuldades de ensinar a doutrina cristã
aos indígenas, porque estes consideravam que as histórias de “Criador que rege
o céu a terra” eram da mesma natureza das suas histórias com “leões, hienas e
chacais” – subversivo.
Falar do
analfabetismo no exército era antimilitarismo. Falar da lepra em Portugal?
Proibido, porque era “assunto fechado”. Um jornalista estivera preso num local
com muitos ratos – corte total. A tuberculose como “doença social” era
perigosíssima para os censores: não bastavam sanatórios, mas ter vida “sem
fome” – corte total. Não podia haver queixas sobre o “caríssimo” serviço
telefónico, sobre a falta de assistência aos pescadores do bacalhau na Terra
Nova, etc.
Suicídios,
como se sabe, não havia. Era um país propício a quedas em poços e a acidentes
com armas de fogo. Uma “figura popular” teve um misterioso “desaparecimento”
(expressão muito usada para os suicídios) – corte total “por se depreender que
é suicídio”. Um tenente em Penacova fez um desfalque e matou-se – corte total.
A Greta Garbo chinesa, a atriz Ruan Lingyu que se suicidara em 1935, era
objecto de uma atenção detalhada da censura, que suprimia com vigor as
“doentias sugestões”.
A moral e
os bons costumes eram, junto com a subversão, real ou imaginada, e o
desrespeito o núcleo duro da acção da Censura. E nisso os censores, muitas
vezes tratados como pouco inteligentes e ainda menos cultos e “burros” no
sentido popular do termo, eram mesmo bons.
Não se
podia saber que em Évora uma rapariga tinha desaparecido da “casa da família”,
coisa assaz inconveniente. Umas “quadras em que se canta o amor prostituído,
totalmente cortadas por imorais”. Uma “versalhada para fadistas” cortada “por porca”
…
Quarenta
e oito anos assim. O Portugal que aparece nos cortes das censuras não era o
Portugal que existia. Esse os portugueses não o podiam conhecer. Alguns
saudosistas de Salazar e alguns neo-saudosistas actuais, que arranjam mil
pretextos para legitimar a ditadura, lavando-a das suas violências para
diminuir a democracia, têm nesta matéria um osso duro de roer. Eles sabem
disso, eles sabem como foi, mas fazem de conta.

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