Joe Biden
pode ser dorminhoco (sleepy), um especialista em ‘gafes’, estar velho, dar
passos em falso. Mas de uma coisa podemos estar certos: ele diz o que pensa.
Não o que diplomaticamente pode parecer convir, mas precisamente o que
democraticamente e com espírito livre precisamos de ouvir. É algo que
reconforta os espíritos dos que não são nem dominados pelo medo, nem pelo
cálculo (que no geral sai furado), nem sequer pela esperança de que um
assassino se transforme em anjo. Há um momento em que todas as gotas
transbordam do copo, e é necessário dizê-lo, como Biden disse: “Por amor de
Deus, este homem não pode continuar no poder.”
O aqui
d’el-rei que se montou depois desta frase — até um porta-voz do Kremlin veio
lembrar serem os russos a escolher o seu Presidente, como se Putin fosse eleito
democraticamente, num ambiente de liberdade — foi extraordinário. O próprio
Departamento de Estado dos EUA e até Macron, que tem tido um papel positivo na
crise, quase pediram desculpa, dizendo que o Presidente americano não quisera
dizer o que disse, ou que terá contribuído para a escalada verbal. Pode ser que
tenha contribuído, mas há algo em que é preciso
pensar: os sentimentos contam, e depois de um dia com refugiados ucranianos, a
ouvir as suas histórias (coisa que Macron, como a enorme maioria dos líderes
europeus, nunca fez), é natural que esses sentimentos se soltem. Mesmo por
formas pouco elaboradas, no plano daquela diplomacia em que abundam os paninhos
quentes. É absolutamente legítimo dizer aos milhões de pessoas, sobretudo
mulheres, velhos e crianças, totalmente indefesos e inocentes, que apenas
dependem do acolhimento que lhes dão os países da UE na fronteira com a
Ucrânia, que o homem que provocou a sua fuga, a ruína das suas casas, a morte
dos seus entes queridos, a destruição das suas vidas, o choro convulsivo dos
seus filhos, esse homem, que se chama Putin, não pode continuar no poder.
Biden foi
sensível ao que viu. Como já em 2011 fora sensível à total desumanidade de
Putin, quando, ainda vice-presidente de Obama, cometeu a ‘gafe’ de dizer que
não vira resquícios de uma alma por trás dos olhos frios do homem, que era
então primeiro-ministro, porque colocara o seu fantoche Medvedev no seu lugar,
por razões legais (em 2008 terminara os dois mandatos constitucionais; voltou a
ser Presidente em 2012 e lá está até hoje, após retirar da lei esse obstáculo
menor — a limitação de mandatos).
Podem,
agora, aqueles que ainda gostariam de usar punhos de renda e frases do século
XIX dizer que foi demais. Não foi! Podem argumentar haver muitos mais países —
olhem a Coreia do Norte — onde os Presidentes deviam ser removidos. É verdade,
mas não é a mesma coisa. Falamos de uma potência militar com armas de
destruição maciça e de um homem que, como quase todos os ditadores, senão
todos, apenas conhece a linguagem da violência. Mais do que isso, falamos de
vizinhos nossos, e escusam vir os do costume (que felizmente são cada vez
menos) comparar situações incomparáveis. Todos nós damos mais importância aos
próximos do que aos distantes. É normal e humano sentirmos a perda dos nossos
próximos de forma diferente de outros, mais distantes, com hábitos diversos. Se
assim não fosse os sentimentos de família, de comunidade, de pátria, de Europa,
de proximidade não existiriam. Apenas um mecanismo sem alma, sem amor. Os
ucranianos são dos nossos. Claro que têm defeitos e manias que momentaneamente
nos podem ser insuportáveis. Mas, ainda assim, da mesma forma que um
acontecimento de um familiar ou do nosso vizinho do lado nos toca de forma
diferente que algo idêntico ocorrido noutras paragens físicas ou sentimentais,
temos deveres de solidariedade para com os nossos próximos.
Há quem
viva tão atarantado com medo das bombas e dos russos que arrisca perder a
liberdade, não poder dizer o que pensa, não agir como entende que deve com
receio de alguma represália. Naturalmente, tudo — palavras e atos — que
contribua para a paz é bem-vindo; como se deve evitar tudo o que nos faça
caminhar na direção contrária. Nisso, concordarão todos os homens decentes. No
que discordam é se a melhor forma de obter a paz é mostrar uma reverência que
trata o poder de Moscovo com medo, ou se é como têm feito os ucranianos, que
literalmente dão o peito às balas.
Tenho
muitas dúvidas que a linguagem mais bem percecionada em Moscovo seja aquela
espécie de linguagem hippie de flores e paz. Felizmente, a NATO, com os EUA e a
Europa têm sabido responder, ao contrário do que poderia Putin congeminar.
Felizmente, Joe Biden mostrou-se um líder do Ocidente. Dos nossos!
Henrique Monteiro, Expresso, 01 de abril de 2022

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