quarta-feira, 6 de abril de 2022

Bucha e a recordação de Jan Karski

 

No dia 24 de abril celebra-se mais um aniversário (o 108.º) do nascimento de Jan Karski. Poucos sabem quem foi este tenente da cavalaria polaca, herói da II Guerra e considerado justo entre as nações por Israel. Mas será necessário alguém como ele para acreditarmos que o mal, a brutalidade e o genocídio fazem parte da condição humana. Mesmo da parte de quem parece civilizado

Jan Karski, depois de preso pelos russos, na sua Polónia natal (os russos e os alemães eram, nessa altura, aliados), conseguiu fugir. Por pouco tempo: foi preso pelos alemães e metido num comboio, cujo destino não era bom. Foi torturado e mandado para um hospital, de onde fugiu outra vez, atirando-se nu por uma janela e despistando os perseguidores. Juntou-se à resistência polaca (ou ao que restava dela) e presenciou crimes indescritíveis dos nazis contra os judeus no gueto de Varsóvia. Por exemplo, que os judeus tinham direito a 184 calorias de alimentação por dia, contra 1800 para os polacos e 2400 para os alemães.

Além de morrerem de fome e frio, os filhos de Israel morriam de tifo dentro dos muros que os alemães construíram ao redor do gueto; a partir de 1942 morriam, também, levados aos milhares para Treblinka, Auschwitz ou Majdanek. A tudo isto assistiu ou de tudo teve conhecimento o tenente Karski, que iniciara a guerra com o célebre ato de coragem que foi investir de cavalo e sabre contra os tanques alemães, recontro em que morreram muitos dos melhores soldados polacos.

Karski tornou-se uma espécie de embaixador do Governo legítimo, clandestino e no exílio da Polónia; contactava os governos inglês e dos EUA, além de ilustres resistentes franceses como De Gaulle. Mesmo quando lhes forneceu o opúsculo “O extermínio de massas de judeus na Polónia ocupada pelos alemães”, publicado pelo governo polaco no exílio, houve muitos que duvidaram de tais barbaridades.

Nem sempre é fácil acreditar-se que tal desumanidade seja possível em sociedades desenvolvidas. O que agora se soube de Bucha, na Ucrânia – mesmo sem sabermos ao certo o que foi – é suficientemente grave para que as principais testemunhas sejam levadas a sério. Não apenas os geoestrategos ou generais e especialistas que falam nas televisões, alguns dos quais parecem ter comichão se alguém responsabilizar os russos.

A mulher que em lágrimas diz que foi violada e precisa de um ginecologista pode ser uma figurante? Pode! Mas teria um excelente curso de teatro.

O homem que diz que viu cinco pessoas sair do bunker em que estava e que pouco depois ouviu cinco tiros, para mais tarde encontrar aquelas cinco pessoas mortas, depois de um deles ter gritado “não disparem, somos civis”, pode estar a mentir? Pode!

Mas os que defendem a Rússia mentem de certeza. Por uma razão lógica: Bucha foi ocupada por russos, não por ucranianos, e quando os russos saíram da povoação nos arredores de Kiev a Comunicação Social pôde entrar. Não antes disso. Quem nada tem a esconder, nada esconde. O que os jornalistas viram foi imediatamente enquadrado pelos serviços russos: quem estava morto eram apoiantes da Rússia que as brigadas nazis ucranianas mataram. Pode isto ser verdade? Pode. Mas algo estranho acontece: por que razão os pró-russos, sabendo de tão desumanas brigadas nazis, não retiraram com os russos? Estranho… A menos que a retirada fosse desordenada, mas isso também desmente os russos.

Depois há o The New York Times, a BBC e muita outra Imprensa. Todos dizem o mesmo: que o genocídio, a matança inacreditável que se vê na cidade, foi obra de russos. E aí vemos a desconfiança, dizem-nos que na guerra tudo é mentira. Sim... é, em parte, verdade. Mas gostavam da BBC e do NYT quando estes denunciaram My Lai, os abusos de Guantánamo, a invasão do Iraque e tantas outras tropelias feitas pelo Ocidente, não os acham suficientemente credíveis agora. Aliás, é como o abaixo-assinado publicado no Expresso a exigir a paz – algo que não reparei quando os russos destruíram a Tchetchénia, invadiram a Geórgia, se apropriaram da Crimeia ou dizimaram Aleppo.

Muita gente pode ter dúvidas legítimas. Eu próprio duvido de muita informação, sobretudo quando é prestada em tempo de guerra. Mas estou certo de uma coisa: de um lado mora a liberdade e do outro a tirania; de um lado há o debate aberto, do outro a imposição autoritária de uma verdade oficial; de um lado, alguns senhores generais continuam a ir à televisão e a receber o salário; do outro estariam sabe-se lá onde? Talvez ao pé do líder da oposição a Putin, numa prisão qualquer da Federação Russa.

Acreditemos em tantos Jan Karski que hoje nos falam e nos alertam; porque não costuma haver fumo sem fogo.

Henrique Monteiro, Expresso, 6 de abril de 2022


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