No dia 24
de abril celebra-se mais um aniversário (o 108.º) do nascimento de Jan Karski.
Poucos sabem quem foi este tenente da cavalaria polaca, herói da II Guerra e
considerado justo entre as nações por Israel. Mas será necessário alguém como
ele para acreditarmos que o mal, a brutalidade e o genocídio fazem parte da
condição humana. Mesmo da parte de quem parece civilizado
Jan
Karski, depois de preso pelos russos, na sua Polónia natal (os russos e os
alemães eram, nessa altura, aliados), conseguiu fugir. Por pouco tempo: foi
preso pelos alemães e metido num comboio, cujo destino não era bom. Foi
torturado e mandado para um hospital, de onde fugiu outra vez, atirando-se nu
por uma janela e despistando os perseguidores. Juntou-se à resistência polaca
(ou ao que restava dela) e presenciou crimes indescritíveis dos nazis contra os
judeus no gueto de Varsóvia. Por exemplo, que os judeus tinham direito a 184
calorias de alimentação por dia, contra 1800 para os polacos e 2400 para os
alemães.
Além de
morrerem de fome e frio, os filhos de Israel morriam de tifo dentro dos muros
que os alemães construíram ao redor do gueto; a partir de 1942 morriam, também,
levados aos milhares para Treblinka, Auschwitz ou Majdanek. A tudo isto
assistiu ou de tudo teve conhecimento o tenente Karski, que iniciara a guerra
com o célebre ato de coragem que foi investir de cavalo e sabre contra os
tanques alemães, recontro em que morreram muitos dos melhores soldados polacos.
Karski
tornou-se uma espécie de embaixador do Governo legítimo, clandestino e no
exílio da Polónia; contactava os governos inglês e dos EUA, além de ilustres
resistentes franceses como De Gaulle. Mesmo quando lhes forneceu o opúsculo “O
extermínio de massas de judeus na Polónia ocupada pelos alemães”, publicado
pelo governo polaco no exílio, houve muitos que duvidaram de tais barbaridades.
Nem
sempre é fácil acreditar-se que tal desumanidade seja possível em sociedades
desenvolvidas. O que agora se soube de Bucha, na Ucrânia – mesmo sem sabermos
ao certo o que foi – é suficientemente grave para que as principais testemunhas
sejam levadas a sério. Não apenas os geoestrategos ou generais e especialistas
que falam nas televisões, alguns dos quais parecem ter comichão se alguém
responsabilizar os russos.
A mulher
que em lágrimas diz que foi violada e precisa de um ginecologista pode ser uma
figurante? Pode! Mas teria um excelente curso de teatro.
O homem
que diz que viu cinco pessoas sair do bunker em que estava e que pouco depois
ouviu cinco tiros, para mais tarde encontrar aquelas cinco pessoas mortas,
depois de um deles ter gritado “não disparem, somos civis”, pode estar a
mentir? Pode!
Mas os
que defendem a Rússia mentem de certeza. Por uma razão lógica: Bucha foi
ocupada por russos, não por ucranianos, e quando os russos saíram da povoação
nos arredores de Kiev a Comunicação Social pôde entrar. Não antes disso. Quem
nada tem a esconder, nada esconde. O que os jornalistas viram foi imediatamente
enquadrado pelos serviços russos: quem estava morto eram apoiantes da Rússia
que as brigadas nazis ucranianas mataram. Pode isto ser verdade? Pode. Mas algo
estranho acontece: por que razão os pró-russos, sabendo de tão desumanas
brigadas nazis, não retiraram com os russos? Estranho… A menos que a retirada
fosse desordenada, mas isso também desmente os russos.
Depois há
o The New York Times, a BBC e muita outra Imprensa. Todos dizem o mesmo: que o
genocídio, a matança inacreditável que se vê na cidade, foi obra de russos. E
aí vemos a desconfiança, dizem-nos que na guerra tudo é mentira. Sim... é, em
parte, verdade. Mas gostavam da BBC e do NYT quando estes denunciaram My Lai,
os abusos de Guantánamo, a invasão do Iraque e tantas outras tropelias feitas
pelo Ocidente, não os acham suficientemente credíveis agora. Aliás, é como o
abaixo-assinado publicado no Expresso a exigir a paz – algo que não reparei
quando os russos destruíram a Tchetchénia, invadiram a Geórgia, se apropriaram
da Crimeia ou dizimaram Aleppo.
Muita
gente pode ter dúvidas legítimas. Eu próprio duvido de muita informação,
sobretudo quando é prestada em tempo de guerra. Mas estou certo de uma coisa:
de um lado mora a liberdade e do outro a tirania; de um lado há o debate
aberto, do outro a imposição autoritária de uma verdade oficial; de um lado,
alguns senhores generais continuam a ir à televisão e a receber o salário; do
outro estariam sabe-se lá onde? Talvez ao pé do líder da oposição a Putin, numa
prisão qualquer da Federação Russa.
Acreditemos
em tantos Jan Karski que hoje nos falam e nos alertam; porque não costuma haver
fumo sem fogo.
Henrique
Monteiro, Expresso, 6 de abril de 2022
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