domingo, 10 de abril de 2022

O direito à solidão




É um dos vários direitos humanos que não estão consagrados em nenhuma constituição: o direito à solidão. Sem solidão ninguém vive, mas há muitas pessoas que simplesmente não têm acesso à solidão.

Pus-me à conversa com um ajudante de cozinha que estava encostado às traseiras de um hotel, a fumar um cigarro.

Ofereceu-me um, eu disse-lhe que já não fumava e ele respondeu que também já não gostava de fumar, mas que não passava sem estar sozinho uns minutos, longe da algazarra da cozinha. Mas se o vissem ali sozinho, sem um cigarro na mão, iam achar estranho, iam levar a mal.Reproduzir

 

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Percebi o que ele me estava a querer dizer e afastei-me, sentindo-me culpado pela intromissão e pelos momentos de solidão que lhe tinha roubado.

É um dos vários direitos humanos que não estão consagrados em nenhuma constituição: o direito à solidão.

Sem solidão ninguém vive, mas há muitas pessoas que simplesmente não têm acesso à solidão: não têm espaço, não tem tempo, não têm transporte. Pior do que tudo é quando nem sequer têm consciência da necessidade da solidão.

A solidão é um intervalo. Até as ilhas estão no meio do mar: mar que leva até outras ilhas. Uma ilha é como uma casota à beira de uma auto-estrada. O que falta não é um meio de comunicação: é um barco ou um carro.

É preciso saber de um campo escondido no meio da cidade, ou de um pinhal longe de onde passam os carros. Mas é preciso ter maneira - tempo, autorização, vagar, transporte - para lá chegar.

É preciso poder fugir - mas ter onde voltar. A solidão feliz é sempre temporária. Não rejeita ninguém: refresca toda a gente.

Estar sozinho onde não está mais ninguém, olhando para as árvores e para a linha do mar, é matar uma saudade. É matar a saudade da solidão antes de nascermos - e da solidão com que vamos morrer.

“Não tenho tempo para mim": é esta a queixa de quem foi espoliado da solidão que merece, da solidão de que precisa para poder viver em sociedade.

Bem ou mal.

 

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