É um dos vários direitos humanos que
não estão consagrados em nenhuma constituição: o direito à solidão. Sem solidão
ninguém vive, mas há muitas pessoas que simplesmente não têm acesso à solidão.
Pus-me à conversa com um ajudante de
cozinha que estava encostado às traseiras de um hotel, a fumar um cigarro.
Ofereceu-me um, eu disse-lhe que já
não fumava e ele respondeu que também já não gostava de fumar, mas que não
passava sem estar sozinho uns minutos, longe da algazarra da cozinha. Mas se o
vissem ali sozinho, sem um cigarro na mão, iam achar estranho, iam levar a mal.
Percebi o que ele me estava a querer
dizer e afastei-me, sentindo-me culpado pela intromissão e pelos momentos de
solidão que lhe tinha roubado.
É um dos vários direitos humanos que
não estão consagrados em nenhuma constituição: o direito à solidão.
Sem solidão ninguém vive, mas há
muitas pessoas que simplesmente não têm acesso à solidão: não têm espaço, não
tem tempo, não têm transporte. Pior do que tudo é quando nem sequer têm
consciência da necessidade da solidão.
A solidão é um intervalo. Até as
ilhas estão no meio do mar: mar que leva até outras ilhas. Uma ilha é como uma
casota à beira de uma auto-estrada. O que falta não é um meio de comunicação: é
um barco ou um carro.
É preciso saber de um campo
escondido no meio da cidade, ou de um pinhal longe de onde passam os carros.
Mas é preciso ter maneira - tempo, autorização, vagar, transporte - para lá
chegar.
É preciso poder fugir - mas ter onde
voltar. A solidão feliz é sempre temporária. Não rejeita ninguém: refresca toda
a gente.
Estar sozinho onde não está mais
ninguém, olhando para as árvores e para a linha do mar, é matar uma saudade. É
matar a saudade da solidão antes de nascermos - e da solidão com que vamos
morrer.
“Não tenho tempo para mim": é
esta a queixa de quem foi espoliado da solidão que merece, da solidão de que
precisa para poder viver em sociedade.
Bem ou mal.
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