Neste
texto, entre cada parágrafo, irei repetir esta frase:
— A
invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os
massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.
Digo isto
não só porque é o que penso e já escrevi antes mas também para ficar mais uma
vez lavrado em acta. Pois é aqui que chegámos, é aqui que estamos e é neste
clima que, a propósito da guerra na Ucrânia, estamos a viver: num clima de
intimidação concertada sobre o pensamento como nunca antes vivi em 30 anos de
escrita em jornais. Quem não pensa exactamente segundo a cartilha pronta a
pensar fornecida pela NATO e pelos países-guia do mundo ocidental é
imediatamente catalogado como amigo de Putin e cúmplice moral das atrocidades
russas na Ucrânia. Portanto, é preciso repetir:
— A
invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os
massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.
Porém, eu
sei que dizer isto é inútil. Não se trata de discutir pontos de vista, até
úteis para o futuro, de rebater argumentos ou de revisitar a história. A maior
parte dos novos cruzados, arautos da guerra à distância, e novos censores ainda
ontem nada sabiam da Rússia, da sua história ou da história da expansão da NATO
para leste e nada lhes interessava a política internacional, entretidos que
estavam a divagar sobre minudências da política doméstica, a educação dos
filhinhos ou as tendências das redes sociais: com esses nem vale a pena perder tempo.
Com outros, todavia, o caso é mais sério. Podiam e deviam discutir as opiniões
contrárias sem recorrer à absoluta falta de seriedade intelectual e a
argumentos de puro terrorismo e delação pública. Todos os dias leio dois ou
três textos destes e até me pergunto como é que não têm vergonha de alinhar em
tamanha campanha ostensiva de apelo ao silenciamento e ao linchamento moral de
quem não pensa tal qual como eles, mesmo que digam e repitam o que eles fazem
de conta que não ouviram:
— A
invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os
massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.
No
“Público”, por exemplo, Francisco Mendes da Silva, alguém que eu leio sempre
com interesse, escreveu um texto cujo título resume toda uma sentença: “Sejam
adultos, assumam que querem a vitória da Rússia”. Para ele, estas pessoas, que
veladamente desejam a vitória militar de Putin, “continuam a querer contaminar
a discussão com uma complexidade que não existe”, quando “o seu problema não é
a dificuldade de pensar, é a dificuldade de assumirem o que verdadeiramente
pensam”. Cobardes, portanto: tão simples quanto isto. Por exemplo, gente como
Kissinger, como George Keenan, como Mário Soares ou Luís Amado, que, em devido
tempo, avisaram que a expansão da NATO a leste era um grave erro geoestratégico
e político, que traria necessariamente consequências para a paz, eram
simplesmente pró-russos e cobardes. Pelo contrário, aqueles que imaginaram que
Gorbachov e os seus sucessores iriam desmantelar o Pacto de Varsóvia, pôr termo
à Guerra Fria e reconhecer a independência de 14 países antes sob a alçada da
URSS e, simultaneamente, aceitar que eles passassem a integrar a NATO e
pudessem instalar nos seus territórios mísseis nucleares tácticos capazes de
atingir Moscovo em poucos minutos sem que a Rússia se sentisse ameaçada eram
apenas genuínos defensores da paz e visionários perante Vladimir Putin ou
qualquer outro Pedro, o Grande, reencarnado. Bem, a esta corajosa gente eu
também poderia dizer: “Sejam adultos e assumam que o que querem é ver a NATO
entrar na guerra e esmagar a Rússia, ou então prolongá-la indefinidamente até
conseguir o mesmo resultado.” Mas não é preciso que eu o diga, disse-o o
Presidente ucraniano, Zelensky, na sua entrevista à “The Economist”: “Há quem
no Ocidente não se importe com uma longa guerra, porque isso significaria
esgotar a Rússia, mesmo que represente o desaparecimento da Ucrânia e o
sofrimento do seu povo.” Mas deixem-me que repita:
Estamos a
viver num clima de intimidação concertada sobre o pensamento como nunca antes
vivi em 30 anos de escrita em jornais
— A
invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os
massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.
E volto a
acrescentar, para que fique claro: nem a NATO nem o Ocidente começaram a
guerra, foi a Rússia e Putin. A responsabilidade é dele, as mortes e a
destruição são responsabilidade dele, os crimes conhecidos até hoje são dele.
Porém, e desde sempre, a minha tese (se é que me permitem ter uma) é esta: com
excepção de Macron, ninguém, entre os países ocidentais, tentou seriamente
evitar a guerra ou pôr-lhe termo, uma vez iniciada. Neste momento, é verdade
que Putin já não parece nada interessado num acordo de paz, embriagado pelo
sinistro grito de “viva la muerte!” já deixou de pensar como alguém razoável ou
mesmo humano. Mas houve momentos antes em que isso pareceu possível e em que
ninguém no Ocidente se mostrou disponível para ajudar. Zelensky tem razão: a
continuação da guerra afora não convém só a Putin, também convém à NATO. E
convém por várias razões — militares, estratégicas, políticas e económicas —,
reflectindo os interesses dos países dominantes da Organização, de que o seu
secretário-geral, Jens Stoltenberg, é fiel servidor: Estados Unidos, França,
Inglaterra, Canadá. Razões militares: a Ucrânia é um excelente campo de batalha
convencional como nunca a NATO experimentara, tendo apenas sido testado em
guerras de contraguerrilha ou contra forças mal equipadas no Iraque,
Afeganistão, Somália, Síria, Balcãs; mais, esta guerra é uma insubstituível
oportunidade para avaliar o grau de eficiência das Forças Armadas russas em
combate, do seu armamento, preparação e logística, e, paralelamente, da
capacidade de resposta dos dispositivos da NATO. Razões geoestratégicas e
políticas: depois do inacreditável erro de avaliação de Putin, a NATO,
achincalhada por Trump e declarada em “morte cerebral” por Macron, ressurgiu
agora como uma inevitabilidade face à nova ameaça russa e prepara-se para
integrar a Suécia e a Finlândia e afirmar-se como entidade indispensável e
inquestionável. Razão económica: o rearmamento de todos os seus 29 membros é um
maná caído do céu para os grandes fabricantes de armas dos países líderes da
Organização, cujos interesses determinam a sua sobrevivência. Mas nada disto
impede que:
— A
invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os
massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.
E,
obviamente, nada disto também equivale a dizer que a culpa da guerra é da NATO
e dos Estados Unidos, como escreveu acerca dos “cobardes” António Barreto, num
texto que um dia talvez venha a lamentar ter escrito. Que a responsabilidade da
guerra é da Rússia é um facto inegável; que a NATO cercou a Rússia é outro: não
sei como é que alguém de boa-fé pode negar qualquer um deles. Porém, nesse
texto, e na sua fúria acusatória a propósito do massacre de Bucha e outros,
escreve António Barreto: “Há quem (diante disto) seja subitamente invadido por
escrúpulos jurídicos e exija comissões independentes para analisar a situação
no terreno, identificar as vítimas e fazer relatórios sobre as circunstâncias
das mortes.” Fico na dúvida se para ele nada disto interessa e convém
investigar ou se o problema está em ser investigado por uma comissão
independente: talvez fosse melhor se fosse investigado pela London Metropolitan
Police, como pateticamente propôs a secretária do Foreign Office. Todavia, e a
propósito de Bucha, cito-lhe Ursula von der Leyen, de visita ao local do
massacre e mesmo assim invadida de escrúpulos jurídicos: “É extremamente
importante que tudo seja bem documentado para evitar derrotas em tribunal se as
provas não forem suficientemente fortes” — ou seja, o Estado de Direito, esse
detalhe que distingue as democracias das sociedades sem escrúpulos jurídicos.
Mas, tal como Mendes da Silva, também António Barreto acusa os que divergem
dele “da mais covarde atitude, que consiste em não dizer o que realmente
pensam, escondendo-se atrás do biombo da hipocrisia”. Eu leio isto e custa-me a
acreditar que um intelectual que o país se habituou a admirar como alguém que
sempre pensou livremente e tantas vezes ao arrepio da opinião dominante seja
agora capaz não apenas de presumir a opinião oculta dos outros mas ainda de
chamar-lhes cobardes por não confessaram a hipocrisia de que os acusa, como ele
gostaria que fizessem. E, desenfreado, acabar a acusá-los de, “diante do
incómodo causado pela violência bruta e pela destruição cega, terem a
desfaçatez de pedirem pensamento”! Esta assassina frase é de uma absoluta
indignidade: pressupõe que para os que ousam pensar diferente dele sobre
questões laterais o essencial — as imagens de morte e destruição que todos
vemos — são apenas um “incómodo” para as suas ideias. E isso permite-lhe,
tendo-os desclassificado ao nível dos próprios criminosos de guerra, acusá-los
da desfaçatez de quererem pensar! Mas, com toda a amizade de sempre, digo ao
António Barreto: eu não peço pensamento, não peço licença para pensar. Nem peço
nem exijo, porque não é preciso, vivendo, felizmente, em democracia.
Simplesmente exerço o direito que me assiste, sem me escudar em
abaixo-assinados nem me intimidar com a fúria que possa causar a “desfaçatez de
pensar” diferente e de assim “contaminar a discussão”. E não: não penso aquilo
que eles queriam que pensasse e que lhes dava jeito confessar que pensava.
Lamento o incómodo, mas penso exactamente aquilo que escrevo. E adiante veremos
o preço inteiro desta guerra tão desejada por alguns.
Miguel
Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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