A Rússia
faz a guerra com o dinheiro da energia que vende à Europa. 74% das exportações
de gás foram, em 2021, para a Europa. Reagindo aos massacres de Bucha, Macron
anunciou novas sanções, concentradas no petróleo e carvão. Para a Rússia, é
mais fácil transferir a venda de carvão e petróleo para outros destinos do que
o gás, que depende de infraestruturas fixas. E a disponibilidade europeia para
cortar aqui também é maior porque, pela mesma razão, é mais fácil mudar de
fornecedores. Se é mau para a Rússia será mau para a Europa. Foi com isso que a
Rússia contou. Mas quando falamos de Europa falamos da Alemanha. Quando a
guerra começou, metade das suas importações de carvão, um terço do petróleo e
metade do gás vinham da Rússia. A Alemanha depende dela para um terço de
consumo de energia. São €200 milhões de financiamento diário ao esforço de
guerra.
Havia, no
início dos anos 90, a sensação de que a paz era um dado adquirido. E que
incluir a Rússia na “Casa da Europa”, envolvendo-a nas trocas comerciais, a
manteria tranquila. A crença no milagre pacificador do comércio internacional
estava nos píncaros como falácia moral em defesa da globalização desregulada. A
relação era tão boa que, em 2001, Putin falou no Bundestag, em bom alemão.
Nestes anos, não foi apenas a paz que pesou, como se viu pela transferência de
Gerhard Schroeder para presidente do conselho da Rosneft, maioritariamente
detida pelo Governo russo. Angela Merkel reforçou esta política. É ela que abre
o Nord Stream 1, em 2011. Ainda mais relevante por causa da opção de encerrar
as centrais nucleares (que garantiam um quarto da energia alemã), depois do
desastre de Fukushima. Mesmo depois da invasão da Crimeia, a Alemanha
manteve-se surda aos alarmes. Quando Olaf Scholz visitou a Casa Branca, em fevereiro
deste ano, foi questionado pelos jornalistas se pretendia encerrar o Nord
Stream 2, caso houvesse invasão. Fugiu à pergunta, mas, mostrando que não é só
em Moscovo que há uma capital de um Império, Biden respondeu por ele,
anunciando o fim de investimento alemão no gasoduto caso a invasão acontecesse.
Até ao fim, a Alemanha acreditou que a dependência russa face ao seu mercado
impediria Putin de ir demasiado longe. E a Rússia acreditou que a dependência
alemã impediria as sanções ao gás. Não travou Putin, mas está a atrasar Scholz.
O CEO da BASF explica porquê: “A energia russa barata tem sido a base da
competitividade da nossa indústria.”
Compreendemos
a catástrofe que seria um corte repentino na compra de gás. Não queremos ver na
Alemanha o que assistimos em França, com a AfD a subir. Num país que passou por
todas as crises quase sem as sentir, desde que o euro garantiu que essa função
ficava para outros, um pequeno abanão é sentido como um terramoto. Mas
compreendemos mesmo? Achamos, como defende o “Financial Times”, que “a Alemanha
e outros países vulneráveis devem ser ajudados” e “o gás disponível
deve ser tratado como um recurso europeu”? Eu acho, porque não sou adepto
egoísmo mascarado de moralismo dos “frugais”. Mas também não sou lorpa. Como
esta partilha do risco não teve precedente na crise financeira, tem de vir com
novas condições de equidade no funcionamento da UE.
Os
sacrifícios da Alemanha com as sanções ao gás russo, de que decidiu depender,
são moderados. Venha a partilha do risco, mas sem a ideia de que quando a crise
é nossa é nossa, quando é deles é nossa
Um
recente artigo de um conjunto de economistas sobre o impacto do corte de
fornecimento de energia russa, citado pelo “Financial Times”, estima que o
resultado do embargo imediato por agora necessário corresponderia a uma queda
de 1,4% a 3% do PIB. O “ECONtribute” prevê uma redução temporária de 2,1%. Tudo
muito abaixo da queda que foi imposta a Portugal pela troika e nem vagamente
comparável ao que aconteceu à Grécia. Entre 2009 e 2013, a economia grega
encolheu 21%, enquanto a taxa de desemprego subiu para 27%. Acompanhado por
raspanetes moralistas que roçaram a xenofobia. E podia ter sido evitado com as
palavras que viriam, demasiado tarde, de Mario Draghi, dando garantias aos
mercados e impedindo o aumento das taxas de juro. Só que, no caso grego e
português, tudo tinha de ser feito sem partilha de riscos — a Alemanha até
lucrou com os programas de austeridade — e com urgência dolorosa. Agora,
pede-se ponderação e calma.
Num
artigo no “The New York Times” sobre esta “facilitadora” de Putin, Paul Krugman
resumiu tudo muito bem: “O que impressiona é o contraste entre a atual
relutância da Alemanha em fazer sacrifícios moderados, mesmo diante de crimes
de guerra horríveis, e os imensos sacrifícios que exigiu de outros países
durante a crise da dívida europeia (...). Recebeu um aviso muito mais claro
sobre sua dependência irresponsável do gás russo do que a Grécia jamais recebeu
sobre seus empréstimos pré-crise.” A escolha de se pôr nas mãos de Putin foi
consciente, informada e reiterada. Enquanto Portugal depende em 34% de energias
renováveis, sendo o quinto melhor na Europa, a Alemanha está em 16º, com 19%,
abaixo da média da UE. Por mim, defendo a proposta de partilhar o risco. Mas só
se isso for um ponto de viragem. Não pode vingar sempre a ideia de que quando a
crise é nossa é nossa, quando é deles é nossa.
Daniel Oliveira, Expresso, 13 de abril de 2022

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