Nada
justifica o vil ataque da Rússia. Mas é longa a lista do que correu mal na
Europa. São erros, ameaças e perigos. Erros das democracias, dos
Algo
correu mal dentro de cada um ou vários países europeus. Alguma coisa não está a
correr bem na Europa. Muito está a correr mal nas fronteiras do continente.
Esta combinação entre causas internas e externas pode ser fatal. Para a paz e a
democracia.
Nada
justifica o vil ataque da
Rússia. Mas é longa a lista do que correu mal na Europa. São erros,
ameaças e perigos. Erros das democracias, dos sistemas políticos e dos seus
dirigentes. Perigos nas relações internacionais entre a Europa e os seus
vizinhos. Ou entre a Europa e todos os seus parceiros tradicionais, de África à
China, da Ásia à América Latina. Ameaças vindas sobretudo do exterior, mas
também do interior: o império russo renascente, a fábrica chinesa triunfante, o
terrorismo islâmico ofensivo e a desigualdade internacional crescente. Não só a
democracia está em recuo nos últimos vinte anos, como os perigos para a paz
deixaram de ser ameaças: são agora morte, invasão e destruição.
Há anos
que os sistemas democráticos entraram em período de crise e risco. Depois de
terem superado as ameaças revolucionárias, estão agora sob pressão dos
nacionalismos renascentes, cada vez mais afirmativos, cada vez mais abertamente
adversários do sistema democrático e da paz social instalada. Políticos e
partidos ditos tradicionais, de famílias afirmadas na história europeia
(social-democratas, socialistas, comunistas, liberais, democratas cristão,
cristãos sociais…) estão em vias de extinção, substituídos por agrupamentos
políticos, de esquerda e de direita, com esquerda e direita, sem esquerda nem
direita, sem pergaminhos, mas com uma voz nova e, por vezes, atraente. Isto num
clima em que a abstenção política eleitoral não cessa de crescer e em que as instituições
democráticas ficaram rígidas. Abriu-se um quase irremediável fosso entre
democracia e cidadãos, entre política e a sociedade civil.
E o que
correu mal entre as nações? O fim da Jugoslávia tinha dado sinais de alarme. É
verdade que havia quem dissesse que se tratava do último estertor, do fim do
velho mundo, do real fim da Guerra Fria. Eram as últimas páginas de um mundo
que felizmente se extinguia. Mas, para outros, era o início de uma nova era,
prenhe de alegrias talvez, mas recheada de perigos e desprovida dos mecanismos
de segurança experimentados. Os acontecimentos imediatos sugeririam então que
era a primeira perspectiva que se impunha. A capacidade de absorção e
acolhimento manifestada pela União Europeia autorizava o optimismo. Um espírito
vencedor permitia o orgulho. Mas a voracidade democrática da NATO e da UE era
insaciável. E, depois de enormes derrotas tanto dentro de fronteiras como
através do mundo, o despotismo russo saía gradualmente da sua letargia.
O que não
deu certo? Os Estados europeus deixaram de perceber as nações ou tão só as
aspirações nacionais. A nova construção racional da federação europeia,
original e inédita, afastava e esquecia as pulsões identitárias, as histórias
nacionais, os reflexos de comunidades antigas… Com todas as suas forças
ameaçadoras, e muitas são-no deveras, o nacionalismo emergia aqui e ali. Em
muitos países europeus, vem do nacionalismo a principal perturbação. Conjugada
esta com a desigualdade social crescente, a distante construção democrática e a
desordem nas políticas e nas realidades imigrantes, a Europa passou a viver sob
ameaça e debaixo de tensão. Sem capacidade para perceber, sem disponibilidade
para reconhecer os seus próprios erros, muitos democratas limitam-se a
vociferar contra o nacionalismo e a extrema-direita, sem entenderem que apenas
olham para os efeitos e não para as causas. Não foi a fraqueza europeia que
causou a guerra russa. Mas a debilidade europeia e democrática tornou o
continente mais vulnerável perante a agressão russa.
Na Europa,
a riqueza cresceu. Como nunca na história. Mas a desigualdade social e
económica também. Foram-se os tempos gloriosos de crescimento imparável de uma
classe média robusta e em expansão. Há hoje, na rica Europa, zonas de pobreza e
de fragilidade que se pensava estarem em vias de desaparecimento. Muita gente
depende da protecção social, do Estado social como se diz, o que é motivo de
orgulho: em qualquer sociedade, um grau elevado de compaixão é sempre positivo.
Mas a dependência excessiva não é saudável e é perigosa. Gera novas
desigualdades e exige recursos inexistentes. Há, pela Europa fora, bairros
degradados, áreas de devastação social, ruínas de decadência urbana, zonas de
conflito social e étnico que revelam sobretudo a incapacidade da Europa democrática
para lidar com os problemas
da imigração, do exílio e da integração de estrangeiros e de
minorias. O cosmopolitismo e a extraordinária capacidade de acolhimento
manifestada pelos países europeus atingiram, em muitas regiões, o ponto crítico
de enormes dificuldades sociais, de tensões inter-raciais e de conflitos de
identidade.
O tecido
social europeu está em crise. As estruturas democráticas dão sinais de
envelhecimento e esclerose. O sistema político tem dificuldades em resistir às
pulsões nacionalistas. O equilíbrio colectivo continental foi quebrado pela
saída do Reino Unido e sobretudo pela guerra iniciada pela Rússia. A capacidade
de defesa da Europa é franzina e dependente. Sem a União Europeia, todos
viveríamos pior. A Europa continua a ser objecto de desejo e de orgulho. Mas a
saída da Grã-Bretanha da União foi um sinal grave da crise europeia. Nem
britânicos nem europeus confessaram que se tratou de um recuo gravíssimo e de
um enfraquecimento mútuo indesculpável.
A guerra
está aí. Feroz. Selvagem. Com ecos de violência há muitas décadas desaparecidos
(ou quase…) da Europa.
Esta
guerra, imposta pela Rússia, nada tem de positivo, nem nos motivos nem nas
consequências. Sobretudo para um povo atacado e um país destruído. Mas pode ser
que exiba as deficiências da democracia, tornando assim mais urgente a sua
renovação ou a sua reinvenção. Talvez tenha como efeito fortalecer a
solidariedade europeia. Pode daqui resultar uma ajuda à construção de uma
defesa europeia mais forte e autónoma. Talvez a aliança atlântica seja
reforçada. É possível que seja renovada e actualizada a luta pela democracia e
pela liberdade. Se assim for, honra ao espírito europeu que saberá fazer força
das suas derrotas e das suas ameaças!

Sem comentários:
Enviar um comentário