CLARA FERREIRA ALVES
UMA OU DUAS COISAS SOBRE QUARENTENAS
Sei uma ou duas coisas sobre quarentenas. No final de outubro, tive um
acidente e uma cirurgia ortopédica que me impediram de andar durante dois
meses. Oito semanas sem poder assentar o pé no chão, carregando o corpo com
muletas. Ou canadianas, o nome amável. Durante o primeiro mês, nada simples
podia fazer, apanhar objetos do chão, carregar uma chávena de café, dormir em
paz, executar trabalhos domésticos, viver. No cume da dificuldade, subir ou
descer escadas, mesmo com dois degraus. Pura inação decretada pela
incapacidade. A partir da primeira semana, a quarentena mental instalou-se. A
sensação de que toda a gente tinha uma vida menos eu. Nestes casos de fratura
trimaleolar, a depressão costuma assombrar os fraturados, segundo relatos que
li na rede, todos de americanos. Os europeus, mais fechados, não partilham.
Aprendi a dificuldade de manter a sanidade mental e recusar o aborrecimento
e a monotonia que precedem a depressão. Os dias amanhecem iguais e o progresso
é invisível. Junte-se a dor constante, a raiva mitigada, a incerteza da
recuperação e das consequências. Numa quarentena normal, sem doença, as tarefas
domésticas e as solicitações quotidianas são um modo de passar o tempo e de o
esquecer. São uma bênção, embora pareçam extenuantes. Numa quarentena doentia,
a quietação induz a fraqueza física e psicológica que em nada se parece com o
cansaço. A recuperação é mais difícil, mais longa, e cada dia tem cem anos.
Lembro-me de contar os dias que faltavam para largar a primeira muleta, como um
presidiário a contar os dias para a liberdade condicional. Oito semanas de
clausura, dois meses, uma eternidade.
A primeira regra é a da resiliência, e dar prioridade a múltiplas tarefas
mentais, mesmo as mais débeis, como ver televisão. Liguei-me à Netflix, à
Amazon e ao HBO. Exagerei, mas dois meses são dois meses, mais um mês até
andar. A comédia foi fundamental. E as séries históricas, que ajudam a ganhar
perspetiva. A comédia, os specials de stand-up, ajudaram-me a rir. Bill Burr, um dos meus
favoritos, “Comedians in Cars Getting Coffee”, de Jerry Seinfeld, Dave
Chappelle, Trevor Noah e as entrevistas de David Letterman, mais por causa de
Letterman do que das entrevistas, preencheram as horas. E outros. Descobri
Phoebe Waller-Bridge, e “Fleabag”, que juntei a “Killing Eve”. Dizia
Christopher Hitchens, num arroubo de misoginia, que as mulheres não têm graça.
Enganou-se. Rejeitei os filmes de terror e as proezas desportivas, deve
evitar-se tudo o que nos remeta para o triste estado das coisas. A série “Chernobyl”
é magistral, mas não recomendo para os dias que correm. Infinitamente
deprimente, embora se possa dizer que se a Humanidade sobreviveu a um desastre
nuclear e a um tsunami com um desastre
nuclear, sobreviverá a isto. Recomendo a quem ficar em casa que não veja
“Contagion”, ou “Outbreak”. Há alturas melhores para rever estes clássicos da
prospetiva ficção científica. Dentro do filme de terror estamos nós. Os
especiais de stand up casaram com o meu
favorito programa de televisão, “Saturday Night Live”. Graças ao YouTube, e a
um computador ou smart TV, podemos aceder aos
episódios e partir o coco a rir, como se dizia dantes.
Nestas coisas,
acrescento que a televisão portuguesa tem a melhor oferta de toda a Europa, e
sem dobragens. Da SIC Radical e dos canais de filmes e séries do cabo às séries
compradas pelas generalistas, onde se pode ver o melhor a tempo e horas, os
nossos pacotes são muito superiores aos do Reino Unido ou da França. É uma das
vantagens de viver em Portugal. Desde já o meu agradecimento a Stephen Colbert,
John Oliver, James Corden e Jimmy Fallon.
Quando me dava um desejo doido de ir almoçar ou jantar fora, via séries
sobre comida. “Chef’s Table” é uma aula sobre as vantagens e desvantagens do
perfeccionismo aplicado à gastronomia. Ou como fatiar uma cebola sem cortar os
dedos, ou rentabilizar o Transtorno Obsessivo Compulsivo.
O que a televisão e o laptop não
supriam, incluindo a satisfação da viagem intelectual, o livro, esse velho
artefacto, oferecia de graça. Nos clássicos, recomendo os Estoicos, e Marco
Aurélio. Reli os “Carnets”, de Camus, agora na moda por causa de “A Peste”, e o
relato da sua viagem às Américas. Maçou-se de morte no Brasil e deslizou pela
megalomania vitaminada de Nova Iorque sem se emocionar. Camus era o europeu no
máximo expoente, uma prova do génio da adoentada Europa. Paris era o centro do
mundo. Ennui, a emoção da ordem. Reli também “O Leopardo” e
“Cem Anos de Solidão”, título adequado. Foi como ler outro livro, o tempo
muda-nos e muda o modo como lemos, e a memória e a experiência trabalham as
páginas como numa primeira visita. Desisti de ler o último Karl Ove Knausgård,
o sexto de “A Minha Luta”. Embora o considere um bom escritor em “A Morte do
Pai” e “Um Homem Apaixonado”, não tem fôlego nem vida para seis volumes. “The
End” foi the end. Fico com as peças dele no “New York Times”,
jornalismo de excelência. Em quarentena, escrever a autobiografia pode ser o
princípio de um best-seller. Certas passagens de “A
Minha Luta” dão a ilusão de que Karl Ove vive em quarentena enquanto escreve,
abrindo uma exceção para mudar fraldas e conviver com crianças, as dele.
Nas quarentenas, as crianças e os cães são a melhor companhia. Não tendo
nem uns nem outros, o meu cão morreu deixando-me em desgosto, não usufruí das
alegrias. Quando os seus filhos o exasperarem no enclausuramento, dê graças a
Deus ou a eles. Cães, e os silenciosos gatos, estilhaçam a monotonia e são
nascentes de ternura e de inocência. Sobre pássaros, peixes e répteis não tenho
opinião.
Confira as remessas de bolo de chocolate Landeau. Tente não abusar, faça
flexões no tapete e maratonas no corredor. Dance ao som de ‘Stayin' Alive’ ou
“The Chronic”. O Landeau é outra das vantagens de viver em Portugal. Arranje
alguém que ande no mundo e lho deixe à entrada da casa. Se sairmos de casa
morremos nós, se ficarmos em casa, morre a economia e morremos nós. Carregue no
chocolate. Ponha a quinoa de quarentena.

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