Estragos no corpo e na cabeça
Há muito pouco tempo escrevi sobre o “ruído do mundo” e a imprevisibilidade
da história. Nem vale a pena lembrar como, em meia dúzia de dias, o “ruído do
mundo” cresceu tanto que estamos na verdade “noutro mundo”, diferente daquele
que tínhamos nessa altura. Para os filósofos, para todas as ciências que devem
a Darwin o seu cânone, para os que sabem como funcionam as mutações e percebem
o DNA e a contínua chuva de partículas que nos atravessa, a nós e aos vírus,
para os ateus e agnósticos que não tem uma visão teleológica do mundo e do
devir, para os matemáticos, que lidam com o acaso, nada disto é surpresa.
A humanidade tem uma longa história de defrontar epidemias e pandemias. O
mundo contemporâneo, com muito pouca memória, tem menos experiência. E quando
me refiro ao mundo contemporâneo, refiro-me à globalização, ao tecido social e
demográfico que está muito para além do imediato passado do século XX. Em 1918,
havia ainda a guerra, as trincheiras, as más condições de vida nas retaguardas,
a escassez de cuidados médicos, a falta de higiene generalizada, nenhuns canais
de comunicação de massas, e foi nessa ecologia que a gripe pneumónica fez os
estragos que fez. Mas, pouco do que se passou na altura, há mais de cem anos
serve para hoje, embora haja algum adquirido científico da pandemia, que tem
vindo sistematicamente a ser estudada.
O mundo mudou muito, cidades, campo, transportes, condições de vida,
alimentação, padrões de vida e de consumo, saúde pública e medicina, sociedade,
comunicações, são muito diferentes de há cem anos. As imagens de cidades e ruas
vazias que pareciam apenas existir em filmes de ficção científica, mostram a
diferença pela estranheza. E é nesse mundo que a pandemia da covid-19 se
desenvolve e, se não fosse trágico, poder-se-ia dizer que a natureza nos
ofereceu um laboratório sobre as doenças, mas também, e sobretudo, sobre os
comportamentos humanos, sem paralelo. O problema é que não é in vitro.
Um dos principais aspectos da actual crise pandémica é a absoluta,
contínua, maciça dose de informação, comunicação, desinformação que todos estão
a receber, sem sequer poderem parar para pensar. É mesmo a “massagem” de McLuhan.
Não sei se é bom, se é mau, ver-se-á depois. Por um lado, as pessoas estão
melhor informadas, e presume-se que mais conscientes dos riscos que correm, por
si e pelos outros; por outro lado, há a possibilidade de reacções de pânico e
comportamentos irracionais, como a corrida a determinados bens de consumo que
nada indica estarem em ruptura, ou excessos de distanciação, ou o olhar para
tudo à nossa volta como um mar de vírus que nos toca mesmo com luvas e máscara
ou a dez metros de distância. Mas há também o lado da desinformação, nalguns
países suscitadas pelas agendas políticas do poder e dos seus aliados na
comunicação, como é o caso exemplar dos EUA, entre um Trump displicente
e desleixado, minimizando o que acontece, e a Fox News a dar-lhe cobertura. E
depois, genericamente, nas chamadas “redes sociais, onde proliferam falsas
notícias, teorias conspirativas, pseudociência, boatos, tribalismo e populismo.
Hoje, não há maneira de impedir que este bas-fond suba
miasmático para a atmosfera e envenene o ar.
Outro aspecto é o de encontrar na sociedade um contraste entre a solidão de
muitos - em particular o alvo preferencial da covid-19, os mais velhos - e um
gregarismo muito comercializado entre os mais novos, bares, concertos,
vagabundagem colectiva dos jovens adultos e circulação pelos novos espaços
urbanos dos centros comerciais, e a tentação da praia, como se não se soubesse
viver sem isso. Todos estes movimentos ou paragens suportam uma nova perturbação
que é o encerramento das escolas, atirando para a casa e para horas que ainda
são para muita gente de trabalho, mesmo na situação actual, com centenas de
milhares de crianças. Acrescem a estas perturbações, os diferentes graus de
quarentena ou isolamento obrigatório ou voluntário de muitos milhares de
pessoas, muitas das quais dependentes de terceiros para obterem o que
necessitam. A única coisa que mitiga esta perturbação no espaço e no tempo
individual e colectivo é a esperança de que não dure muito.
Justifica-se tão grande mudança, para uma doença que, para a maioria, é
razoavelmente benigna? Justifique-se ou não, vai-se saber depois, porque o que
se vive hoje é um ponto sem retorno. Claro que entre a prudência e o medo, o
medo é mais poderoso, e o medo moderno, comunicacional, urbano, entre o
telemóvel e a Rede, é tão inesperado e tão pouco experienciado nas sociedades
sem guerra, que leva à paranóia.
Deixo de
lado, os efeitos económicos sobre os quais muito se tem escrito e que será
provavelmente o rastro mais durável da pandemia: mas se for apenas este o
efeito, mais a médio prazo do que se está a passar, volta-se ao sítio com
algumas perdas, desigualmente distribuídas como é costume. Porém, evita-se a
componente social do medo que o desconhecido gera, muito mais fundo do que as
falências, os despedimentos, a crise, que são coisas que conhecemos e que são
muito perturbadoras para a vida de indivíduos e famílias, mas menos
perturbantes para a cabeça. Para quem não está na primeira linha de risco, é na
cabeça que os estragos vão ser maiores. Ámen.
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