Estado de emergência:
cuidado com o que desejas
A nossa
sociedade, como a de todos os países ocidentais, não está preparada para viver
com a incerteza nem com a ausência de horizontes temporais. Somos rápidos a
reagir e a exigir, convictos na opinião de hoje e prontos a ser convictos na de
amanhã, mas ficamos nervosos com a ausência de resultados imediatos. De
repente, há quem saiba tudo sobre controlos aeroportuários, quem conte
espanhóis no Alentejo, quem ache que todas as profissões devem parar de
trabalhar e, claro, quem exija que o estado de emergência deve ser decretado já
e em força.
Cuidado com
o que desejam nestes momentos de dúvida e medo. O estado de emergência é uma
medida excecional, que não deve ser usada em períodos longos. Mais, só deve ser
usada no momento certo. Numa epidemia, o momento certo tem de ter uma base
científica, não nasce de um áudio de WhatsApp nem de um plano genial que um
professor jubilado colocou no Facebook. Não, esta crise foi desvalorizada na
Europa numa primeira fase mas agora está a ser atacada de frente. Portugal tem
antecipado, com hesitações desnecessárias, a maior parte das medidas eficazes
em termos de comportamento da população. Não precisa de passar ao outro extremo
já. Sobretudo porque o que nós temos já é uma espécie de estado de emergência
automedicado.
Os
portugueses decidiram, e bem, seguir uma parte das indicações das autoridades e
passaram ao quase estado de emergência sem precisarem de ler a bula
constitucional. Já o praticam em larga escala. Reduziram movimentos,
fecharam-se em casa, trabalham à distância, respeitam a maior parte da etiqueta
social e respiratória. Claro que, feita a sua parte, querem mais. Só que o
estado de emergência não é um simples mais, é um ponto final antes do estado de
sítio.
A atual
situação permite que a economia não pare toda, que sectores fundamentais de
produção e de serviços se mantenham em níveis próximos dos mínimos. Numa guerra
longa - e este processo vai demorar meses - não se podem queimar todas as armas
na primeira semana. Percebo que o Presidente da República queira regressar do
seu autoexílio em Elba com um estado de emergência pronto a assinar. Mas devia
antes guardá-lo para quando for estritamente necessário.
Uma epidemia
demora bastante tempo a travar. É como um petroleiro, que inicia a manobra de
desaceleração no ponto x mas só vai parar muitas milhas náuticas adiante, tal o
peso, a velocidade e a natureza da superfície. Os portugueses estão em casa a
olhar para uma epidemia à espera que ela trave na próxima semana, mas isso não
vai acontecer. É frustrante, e a frustração coletiva tem um enorme poder
destrutivo. Rapidamente poderemos passar do orgulho coletivo de civismo para a
frustração da passagem do tempo e dos resultados que demoram.
Estamos
todos com medo de uma epidemia mas ninguém parece ter medo de uma economia
devastada ou de uma democracia que não sopese direitos e deveres. A calma, o
bom senso e a determinação são fundamentais. E nem todas as medidas dramáticas
têm o valor que lhes atribuem.
Ricardo Costa, 17 de março de 2020
Ricardo Costa, 17 de março de 2020

Sem comentários:
Enviar um comentário