segunda-feira, 16 de março de 2020



O SNS em tempos de SOS

Nenhum texto repete vezes de mais os elogios à qualidade clínica das classes profissionais da saúde pública. No ataque a na defesa do Covid-19, soma-se outro reconhecimento: a forma como todos estão disponíveis, expondo-se ao risco da primeira linha do contágio, incluindo privarem-se ou reduzirem contactos com as famílias, incluindo médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, auxiliares, incluindo os reformados que se voluntariaram, os internos em formação nas tendas, os estudantes nas linhas de atendimento, incluindo bombeiros, paramédicos, motoristas de ambulâncias, obrigado a todos, obrigado, obrigado, obrigado.

Nas próximas semanas, no entanto, o país vai passar da consternação à conturbação. À medida que o número de infetados galgue a curva, que casos críticos possam resultar em fatalidades, que os hospitais não acolham todas as pessoas no tempo real dos seus tormentos, é a nossa — a sua — própria calma que vai ser testada. É fácil deixar crescer o medo, vê-lo degenerar em revolta, vê-la tornar-se tareia contra as paredes.

Passaram menos de duas semanas do que deverão ser dez até ao pico. Se a progressão será geométrica, como antecipou a ministra da Saúde; se teremos consequências sobre as próprias vidas, como preveniu o primeiro-ministro; se isto vai durar mais tempo, como preparou o Presidente da República; então o foco vai passar dos médicos para os doentes. Daqui a dias as notícias não serão sobre números mas sobre pessoas, os testemunhos não serão dos receosos mas dos desprotegidos, os diretos não serão nas salas dos Ministérios mas às portas dos hospitais, as reportagens mostrarão gente em filas de espera nas cidades, gente sem saber o que as espera nas aldeias, e erros e falhas, e ataques e narrativas e aproveitamentos políticos (haveremos de escrever sobre a questão política).

Os profissionais de saúde cuja competência, dedicação e abnegação hoje e sempre nos salvam são os mesmos que há anos protestam contra a falta de meios e se demitem de cargos de chefia por imperativos éticos. E serão os mesmos que vão protestar a favor de mais medidas de contenção. Não interessa aqui nem agora culpar ministros pelo passado, mas responsabilizá-los pelo presente e futuro. Interessa saber que a falta de profissionais, de equipamento, de infraestruturas capazes vai agora tornar-se escandalosamente visível. Não é hora de pôr em causa do SNS, mas de perceber as suas carências e ser tolerante com a resistência do que não está preparado para uma fase aguda como a que se segue. Que não desembarquemos nas águas da demagogia política radical, que não nos tornemos a própria fúria. Mesmo quando provavelmente concluirmos que há vítimas não do vírus nem da medicina, mas da falta de meios e de organização.

Interessa também responsabilizarmo-nos a nós próprios. Ninguém está apenas de fora a aplaudir ou a criticar, mas dentro de uma pandemia que precisa da ação individual, da decisão de cada um, da pertença comunitária. Esta contradição de termos profissionais de primeira e meios de segunda fará dizer que temos políticos de terceira, mas não pode fazer com nos excluamos do compromisso individual com a responsabilidade coletiva.

Teremos de ser pacientes com os próprios profissionais de saúde. Muitos ficarão exaustos, física e mentalmente, o que favorece o erro, a descoordenação, até a resposta torta à enésima pessoa que neles descarregar a sua aflição. Temos de ser exigentes na análise aos meios de saúde pública, não para decapitar um responsável que diga uma frase mal dita ou maldita, não para esperar que o sistema possa responder num momento crítico de pandemia como se fosse um tempo normal, mas para avaliar de forma informada um SNS a rebentar pelas costuras e com fortíssimas desigualdades entre litoral e interior, entre urbes e aldeias, entre cidades e campo. Temos de saber também a fortuna de vivermos num país com esta qualidade clínica, com proteção social e que não deixa ninguém fora do sistema público por falta de dinheiro ou de seguros de saúde.

A crise de saúde pública vai testar-nos enquanto país e enquanto pessoas, convocando a liderança política, a confiança técnica e a responsabilidade individual. Incluindo a de não nos tornarmos agressivos mesmo quando nos tocar a nós ou aos nossos. Nesta crise, todos os outros são nossos para alguém. Todos somos nossos.

Como tratar os médicos que tratam de nós? Com confiança, admiração, com gratidão. Mas também com paciência para a sua própria exaustão, falta de meios e necessidade de triagem. Daqui a dias, o vazio no interior e as enchentes no litoral vão testar o sistema e a nossa própria reação à aflição. Que não seja cada um por si nem cada um contra os outros. Que a cotovelada fique desta crise como o cumprimento que inventámos, não como a agressão de desesperados. Isto é com todos, isto é comigo, isto é consigo.

PEDRO SANTOS GUERREIRO

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