O SNS em tempos de SOS
Nenhum
texto repete vezes de mais os elogios à qualidade clínica das classes
profissionais da saúde pública. No ataque a na defesa do Covid-19, soma-se
outro reconhecimento: a forma como todos estão disponíveis, expondo-se ao risco
da primeira linha do contágio, incluindo privarem-se ou reduzirem contactos com
as famílias, incluindo médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos,
auxiliares, incluindo os reformados que se voluntariaram, os internos em
formação nas tendas, os estudantes nas linhas de atendimento, incluindo
bombeiros, paramédicos, motoristas de ambulâncias, obrigado a todos, obrigado,
obrigado, obrigado.
Nas
próximas semanas, no entanto, o país vai passar da consternação à conturbação.
À medida que o número de infetados galgue a curva, que casos críticos possam
resultar em fatalidades, que os hospitais não acolham todas as pessoas no tempo
real dos seus tormentos, é a nossa — a sua — própria calma que vai ser testada.
É fácil deixar crescer o medo, vê-lo degenerar em revolta, vê-la tornar-se
tareia contra as paredes.
Passaram
menos de duas semanas do que deverão ser dez até ao pico. Se a progressão será
geométrica, como antecipou a ministra da Saúde; se teremos consequências sobre
as próprias vidas, como preveniu o primeiro-ministro; se isto vai durar mais
tempo, como preparou o Presidente da República; então o foco vai passar dos
médicos para os doentes. Daqui a dias as notícias não serão sobre números mas
sobre pessoas, os testemunhos não serão dos receosos mas dos desprotegidos, os
diretos não serão nas salas dos Ministérios mas às portas dos hospitais, as
reportagens mostrarão gente em filas de espera nas cidades, gente sem saber o
que as espera nas aldeias, e erros e falhas, e ataques e narrativas e
aproveitamentos políticos (haveremos de escrever sobre a questão política).
Os
profissionais de saúde cuja competência, dedicação e abnegação hoje e sempre
nos salvam são os mesmos que há anos protestam contra a falta de meios e se
demitem de cargos de chefia por imperativos éticos. E serão os mesmos que vão
protestar a favor de mais medidas de contenção. Não interessa aqui nem agora
culpar ministros pelo passado, mas responsabilizá-los pelo presente e futuro.
Interessa saber que a falta de profissionais, de equipamento, de
infraestruturas capazes vai agora tornar-se escandalosamente visível. Não é
hora de pôr em causa do SNS, mas de perceber as suas carências e ser tolerante
com a resistência do que não está preparado para uma fase aguda como a que se
segue. Que não desembarquemos nas águas da demagogia política radical, que não
nos tornemos a própria fúria. Mesmo quando provavelmente concluirmos que há
vítimas não do vírus nem da medicina, mas da falta de meios e de organização.
Interessa
também responsabilizarmo-nos a nós próprios. Ninguém está apenas de fora a
aplaudir ou a criticar, mas dentro de uma pandemia que precisa da ação
individual, da decisão de cada um, da pertença comunitária. Esta contradição de
termos profissionais de primeira e meios de segunda fará dizer que temos
políticos de terceira, mas não pode fazer com nos excluamos do compromisso
individual com a responsabilidade coletiva.
Teremos
de ser pacientes com os próprios profissionais de saúde. Muitos ficarão
exaustos, física e mentalmente, o que favorece o erro, a descoordenação, até a
resposta torta à enésima pessoa que neles descarregar a sua aflição. Temos de
ser exigentes na análise aos meios de saúde pública, não para decapitar um
responsável que diga uma frase mal dita ou maldita, não para esperar que o
sistema possa responder num momento crítico de pandemia como se fosse um tempo
normal, mas para avaliar de forma informada um SNS a rebentar pelas costuras e
com fortíssimas desigualdades entre litoral e interior, entre urbes e aldeias,
entre cidades e campo. Temos de saber também a fortuna de vivermos num país com
esta qualidade clínica, com proteção social e que não deixa ninguém fora do
sistema público por falta de dinheiro ou de seguros de saúde.
A crise
de saúde pública vai testar-nos enquanto país e enquanto pessoas, convocando a
liderança política, a confiança técnica e a responsabilidade individual.
Incluindo a de não nos tornarmos agressivos mesmo quando nos tocar a nós ou aos
nossos. Nesta crise, todos os outros são nossos para alguém. Todos somos
nossos.
Como
tratar os médicos que tratam de nós? Com confiança, admiração, com gratidão.
Mas também com paciência para a sua própria exaustão, falta de meios e
necessidade de triagem. Daqui a dias, o vazio no interior e as enchentes no
litoral vão testar o sistema e a nossa própria reação à aflição. Que não seja
cada um por si nem cada um contra os outros. Que a cotovelada fique desta crise
como o cumprimento que inventámos, não como a agressão de desesperados. Isto é
com todos, isto é comigo, isto é consigo.

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