Covid-19. Ventura é igual aos que preferem a praia ou
andam nos copos no Bairro Alto
André Ventura e o Chega, na sua onda desenfreada de populismo irresponsável, decidiram afixar mais um outdoor político, desta vez destinado a criticar o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, há duas semanas em isolamento voluntário na sua casa de Cascais.
“Marcelo em quarentena. Um verdadeiro Presidente não se esconde”, lê-se na
mensagem difundida por aquele partido.
A forma como se comportou Marcelo nas últimas semanas dá azo a muitas críticas
e por isso mesmo este tipo de mensagem pode passar com alguma facilidade, mesmo
junto daqueles que não professam qualquer simpatia por André Ventura.
O problema é que a mensagem esconde algo de bem mais grave, que decorre da
‘normalização’ da sociedade pósverdade das redes sociais, em que a informação
correta sobre os assuntos vale bastante menos que seguir uma onda de indignação
fácil que apela aos nossos instintos mais primários. E em que o insulto faz
parte do dia a dia.
No fundo, o que Ventura e o Chega fazem é mais ou menos o mesmo que aqueles
que, atirando às urtigas as recomendações das autoridades e responsáveis de
saúde, não se coibiram de rumar aos milhares às praias mal o sol fez subir um
pouco a temperatura. Ou que continuam alegremente a assobiar para o lado e a
enfrascar uns copos no Bairro Alto ou outros locais de diversão noturna, ignorando
os perigos para si e sobretudo para os outros.
No fundo, o que fazem é ignorar o alarme que a pandemia do Covid-19
representa para cada um de nós e para a sociedade coletivamente. É ignorar o
potencial de risco de um novo vírus do qual ignoramos muito (mas que já sabemos
que é muito contagioso e bastante mais mortal que a gripe comum) e acreditar
que tudo não passa de uma imensa cabala ou histeria coletiva criada para nos
assustar a todos.
Voltemos ao Presidente.
Claro que Marcelo devia ter explicado melhor logo desde o primeiro dia a
que se devia o seu isolamento (que foi aconselhado pela ministra da Saúde).
Claro que Marcelo nunca deveria ter ido à janela dar ‘entrevistas’ sem
nexo.
Claro que Marcelo devia evitar falar aos portugueses num vídeo caseiro de má qualidade em que a mensagem mal passa.
Mas, ao isolar-se, Marcelo mostrou aos portugueses como o assunto era para
levar a sério.
Mas Marcelo ao falar aos jornalistas também mostrou como se deve ter todos os cuidados mas sem cair em alarmismos e acreditando que a vida continua e que a normalidade deve ser mantida… dentro da anormalidade disto tudo.
Mas Marcelo, ao seguir os passos exigidos para convocar o Conselho de
Estado e decretar o estado de emergência, também mostra como, mesmo numa
situação delicadíssima, a burocracia é necessária e a melhor garantia que temos
contra a tirania e a arbitrariedade de quem nos governe.
Marcelo pode ter cometido erros políticos. Mas mil vezes mil os erros
políticos de Marcelo do que as mensagens incentivadoras de ódio primário destes
populistas que nos entraram pela janela.
Martim Silva, Expresso, 17 de março de 2020

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