Estado de pânico institucionalizado
Sr. primeiro-ministro, peça à Assembleia da República que não deixe que o homem dos afetos se transforme em contagiador de pânico! Se ao fim
de uma vítima mortal já aqui estamos, como estaremos ao fim de cem? Não nos
deixe morrer da cura.
Não, não é minimamente proporcional! Não, não é aceitável que o Presidente
da República finja que se esqueceu de tudo quanto escreveu sobre Direito
Constitucional democrático e, intimidado pelos Torquemadas todos que difundem o
vírus do pânico e acusam de “cobardia” quem não está em pânico como eles, se
coloque à frente do partido do alarmismo e banalize o recurso ao estado de emergência num momento
em que não há qualquer indício social de desprezo pelas medidas sanitárias já
impostas!
O Presidente faz mal em dar ouvidos aos alarmistas (autarcas, académicos do
“eu bem vos avisei”, Chicões e influencers do terror social no
Facebook) que, depois de fecharem milhões em casa (ajudando a que quem é já
portador do vírus contamine depressa os seus conviventes forçados 24/24 horas),
se horrorizam com gente a correr ao ar livre ou sentada num parque público, e
que, só por isso, quer polícias e soldados transformados em gestores
improvisados de saúde pública, a deterem cidadãos pela rua. Era bem melhor que,
por cima da sua idiossincrática visão da doença e da saúde (cada um tem direito
à sua, mas o Presidente de uma República não tem o direito de a impor sem boa
fundamentação científica e ponderação política), ele ouvisse mais a
Direção-Geral da Saúde, gente que lhe explique o necessário equilíbrio entre
medidas de contenção e esse mínimo de vida social e afetiva que permite
produzir, distribuir, assegurar a vida daqueles a quem se recomenda ficar em
casa.
Ou será que o Presidente também quer mandar para casa quem trabalha? Não se
dá ele conta que o estado de emergência só vem aumentar o estado de alarme
social que serviu de justificação para o encerramento de tudo quanto é público,
fazendo com que aqueles que têm mantido o país a funcionar se perguntem porque
não podem/deveriam eles fechar-se em casa também? Julga ele que o estado de
emergência aumenta a segurança sanitária para quem tem, deve, continuar a
trabalhar? Quando o número de casos continuar a subir (como sobe em Itália desde que se impuseram as medidas de restrição absoluta
à mobilidade, ao mesmo ritmo que subia sem elas), não percebeu ele que o
partido do pânico clamará que “isto não está a funcionar!” e vai pedir que se
parem transportes públicos, se fechem fábricas, se imponha o recolher
obrigatório, se limite a uma hora por dia a saída de casa? Cedeu-se ao pânico
uma vez, ceder-se-á sempre...
Não, sr. primeiro-ministro, não diga que “sempre que o Presidente assim
considerar, o Governo cá estará para executar essa ordem”! Diga-lhe não agora
para não ter de lhe dizer sim cada 15 dias, quando, perante uma situação
inevitavelmente pior que a atual, o Presidente continuar a insistir que há que
renovar o estado de emergência, ou pedir um upgrade para o
estado de sítio! Não, não deixe que o partido do pânico venha pedir a revisão
da Constituição para permitir tornar permanentes exceções que só se deviam
permitir por 15 dias! Não, peça à Assembleia da República que não deixe que o
homem dos afetos se transforme em contagiador de pânico! Se ao fim de uma
vítima mortal já aqui estamos, como estaremos ao fim de cem? Não nos deixe
morrer da cura.

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