quinta-feira, 19 de março de 2020


Isto não é uma guerra e espalhar o pânico é um erro
Utilizar a bomba atómica da contenção radical pode matar o vírus, mas também provoca a destruição total da economia. A médio prazo, isso pode matar tanto ou mais que a covid-19.

Nós não estamos em guerra, e por respeito a todas os que sabem aquilo que uma guerra é, sugiro que comecemos por não infectar o vocabulário com o vírus do nosso medo. Há uma diferença gigantesca entre apelar à prudência e inteligência da população e desatar a pôr o país inteiro em polvorosa, como se estivéssemos na antecâmara do apocalipse. Calma. O país estava (e está) manifestamente impreparado para combater o coronavírus, e ele irá causar muitos milhares de mortos. Mas nada justifica a estúpida ciclotimia que leva cada português a saltar do encolher de ombros (“isto não tem perigo nenhum”) ao grito de pânico (“é o princípio do fim do mundo!”), turbinada pela ausência de uma estratégia clara de acção por parte do Estado.

Não, isto não é uma guerra, mas se estiverem desesperados por utilizar a palavra “guerra”, então tripliquem logo a dose, porque não há uma, mas três: 1) a guerra biológica; 2) a guerra económica; e 3) a guerra psicológica. É preciso (1) proteger a saúde dos mais vulneráveis, (2) manter um funcionamento mínimo da economia e (3) promover a estabilidade mental dos portugueses, que se forem obrigados pelo Estado a permanecerem enfiados em casa durante um mês, e a fazer filas de três quartos de hora para entrar em supermercados, irão rapidamente dar em doidos. É por isso que o vocabulário bélico me parece tão mal escolhido – o verdadeiro problema é bastante mais subtil, e tem a ver com a extrema dificuldade de decidir todos os dias em cima da corda bamba, com um número de variáveis tão extensa que a probabilidade de errar é muito maior do que a de acertar.

O entusiasmo popular pela declaração presidencial do “estado de emergência” está mais próximo do fetichismo do que de outra coisa qualquer. O povo espera que três palavras mágicas pronunciadas por Marcelo curem alguma coisa, o que é tanto mais absurdo quanto o Governo nem sequer sentia necessidade delas (e António Costa não se cansou de sublinhar isso mesmo). Seria óptimo que a autorização que concedemos ao Governo para agir à bruta e meter toda a gente dentro de casa fosse a solução para todos os males. Não é. O combate ao coronavírus é um exercício dificílimo de equilibrismo e de doseamento de acções contraditórias: medidas de contenção a menos levam à propagação do vírus; e medidas de contenção a mais levam ao extermínio da economia e à loucura dos portugueses.

Isto está muito longe de ser apenas um problema de saúde. Nós precisamos de políticos focados e com extremo bom-senso, apoiados por bons especialistas, que saibam encontrar o balanço perfeito entre o combate epidémico e o combate económico. Rui Tavares escreveu ontem um artigo a discordar de mim com um título bonito – “A economia recupera; os mortos não”. Infelizmente, não é assim tão simples, como o próprio Rui acabava por reconhecer no corpo do artigo: “Não deixar a economia funcionar com normalidade também provoca mortos evitáveis.” Pois provoca. As epidemias passam; a economia não – eis um título alternativo. Utilizar a bomba atómica da contenção radical pode matar o vírus, mas também provoca a destruição total da economia. A médio prazo, isso pode matar tanto ou mais que a covid-19. É muito lindo ver toda a gente a elogiar o civismo dos portugueses, mas ele só existe porque as pessoas estão em casa há menos de uma semana com o salário integral na conta. É melhor não contar com o mesmo nível de civismo quando deixar de ser assim.

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