Isto não é uma guerra e
espalhar o pânico é um erro
Utilizar a
bomba atómica da contenção radical pode matar o vírus, mas também provoca a
destruição total da economia. A médio prazo, isso pode matar tanto ou mais que
a covid-19.
Nós não estamos em guerra, e por respeito a todas os que sabem aquilo que
uma guerra é, sugiro que comecemos por não infectar o vocabulário com o vírus
do nosso medo. Há uma diferença gigantesca entre apelar à prudência e
inteligência da população e desatar a pôr o país inteiro em polvorosa, como se
estivéssemos na antecâmara do apocalipse. Calma. O país estava (e está)
manifestamente impreparado para combater o coronavírus, e
ele irá causar muitos milhares de mortos. Mas nada justifica a estúpida
ciclotimia que leva cada português a saltar do encolher de ombros (“isto não
tem perigo nenhum”) ao grito de pânico (“é o princípio do fim do mundo!”),
turbinada pela ausência de uma estratégia clara de acção por parte do Estado.
Não, isto não é uma guerra, mas se estiverem desesperados por utilizar a
palavra “guerra”, então tripliquem logo a dose, porque não há uma, mas três: 1)
a guerra biológica; 2) a guerra económica; e 3) a guerra psicológica. É preciso
(1) proteger a saúde dos mais vulneráveis, (2) manter um funcionamento mínimo
da economia e (3) promover a estabilidade mental dos portugueses, que se forem
obrigados pelo Estado a permanecerem enfiados em casa durante um mês, e a fazer
filas de três quartos de hora para entrar em supermercados, irão rapidamente
dar em doidos. É por isso que o vocabulário bélico me parece tão mal escolhido
– o verdadeiro problema é bastante mais subtil, e tem a ver com a extrema
dificuldade de decidir todos os dias em cima da corda bamba, com um número de
variáveis tão extensa que a probabilidade de errar é muito maior do que a de
acertar.
O entusiasmo popular pela declaração presidencial do “estado de emergência” está mais próximo do fetichismo do que
de outra coisa qualquer. O povo espera que três palavras mágicas pronunciadas
por Marcelo curem alguma coisa, o que é tanto mais absurdo quanto o Governo nem
sequer sentia necessidade delas (e António Costa não se cansou de sublinhar
isso mesmo). Seria óptimo que a autorização que concedemos ao Governo para agir
à bruta e meter toda a gente dentro de casa fosse a solução para todos os
males. Não é. O combate ao coronavírus é um exercício dificílimo de
equilibrismo e de doseamento de acções contraditórias: medidas de contenção a
menos levam à propagação do vírus; e medidas de contenção a mais levam ao
extermínio da economia e à loucura dos portugueses.
Isto está muito longe de ser apenas um problema de saúde. Nós precisamos de
políticos focados e com extremo bom-senso, apoiados por bons especialistas, que
saibam encontrar o balanço perfeito entre o combate epidémico e o combate
económico. Rui Tavares escreveu ontem um artigo a discordar de mim com um título
bonito – “A economia recupera; os mortos não”. Infelizmente, não é
assim tão simples, como o próprio Rui acabava por reconhecer no corpo do
artigo: “Não deixar a economia funcionar com normalidade também provoca mortos
evitáveis.” Pois provoca. As epidemias passam; a economia não – eis um título
alternativo. Utilizar a bomba atómica da contenção radical pode matar o vírus,
mas também provoca a destruição total da economia. A médio prazo, isso pode
matar tanto ou mais que a covid-19. É muito lindo ver toda a gente a elogiar o
civismo dos portugueses, mas ele só existe porque as pessoas estão em casa há
menos de uma semana com o salário integral na conta. É melhor não contar com o
mesmo nível de civismo quando deixar de ser assim.
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