CORAÇÕES AO ALTO!
Tive hoje uma longa conversa com o Ministro da
Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor que me encheu de esperança
nestes tempos particularmente sombrios. Sobretudo por ver que, no meio do caos,
há quem consiga ter visão e esteja a tirar partido daquilo que Portugal tem de
melhor nos campos da Ciência e Tecnologia. Manuel Heitor está a envolver
activamente a comunidade científica e tecnológica portuguesa – que tem enormes
capacidades, como ontem descrevi – para a mobilização geral nesta guerra.
Vou tentar descrever algumas das frentes nesta
batalha muito menos visível, mas talvez não menos importante, do que a frente
estritamente médica. São notícias desta frente de batalha que trago hoje.
Manuel Heitor, em estreita colaboração com
outros membros do Governo e líderes de instituições científicas, está a
proceder à identificação e valorização de um conjunto de iniciativas e
projectos de base científica e tecnológica com implementação imediata e eficaz
para entrarem em acção nesta guerra. Serão as nossas “armas secretas” para esta
guerra. Eis os exemplos mais impressionantes.
1. O teste de diagnóstico por PCR implementado
pelo Instituto de Medicina Molecular (IMM) (que ontem descrevi no post “Testes:
a solução está em Portugal”) está certificado e validado pelo Instituto Ricardo
Jorge e está pronto para entrar em acção. Usa reagentes produzidos em Portugal
pela empresa de biotecnologia NZYTech. O teste do IMM permitirá ainda estimar a
carga viral, que poderá ser relevante na avaliação do prognóstico clínico.
2. Um dos materiais em falta para a
implementação dos testes tem sido a falta de zaragatoas. A Iberomoldes, da
Marinha Grande, sob a liderança de Joaquim Meneses, reconverteu a sua linha de
montagem no espaço de um dia de forma a produzir zaragatoas. Na próxima
segunda-feira deverá dispôr de 40.000 para entrega imediata.
3. O teste do IMM vai ser produzido em grande
quantidade e o objectivo é que seja aplicado em unidades próprias por todo o
País. A aplicação dos testes aos lares de idosos é muito importante e
particularmente critica e urgente. Está a ser implementada em coordenação
directa com a Ministra do Trabalho e Segurança Social (MTSS), Ana Mendes
Godinho, e com a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) em articulação com a Segurança
Social. Exige uma operação muito sensível de logística, para recolher amostras
e aplicar as medidas necessárias de isolamento dos idosos contagiados. Estão a
ser recolhidos apoios de mecenas e voluntários pelo MTSS.
4. A tradição portuguesa nas Biociências está
mais ligada à área da Imunologia, não da Virologia. No entanto, outras unidades
de investigação de excelência (IGC, ITQB, CEDOC) estão a reorientar a sua
investigação com efeitos imediatos para poder ajudar nesta luta.
5. A Biosurfit, empresa portuguesa de
Biotecnologia sediada na Azambuja, em particular dispositivos médicos e testes
PCR, reorientou a sua actividade para o desenvolvimento de novo processo de
triagem “SMART”, que está já em implementação Hospital de campanha instalado na
Cruz Vermelha Portuguesa e arrancará na segunda-feira. Este sistema permite
antecipar a detecção dos processos de maior risco ainda antes de o paciente ter
marcados problemas respiratórios, facilitando a prevenção da propagação do
COVID: um dos grandes problemas deste vírus são os pacientes “invisíveis”, que
estão espalhados pela população sem noção de que estão infectados e
contagiosos.
6. O CEIIA, centro de Engenharia e
Desenvolvimento de Produtos sediado em Matosinhos e virado para a indústria
aeronáutica, onde trabalha mais de uma centena de engenheiros aeroespaciais,
foi reconvertido para realizar o desenvolvimento de ventiladores invasivos, em
estreita colaboração com a Escola de Medicina da Universidade do Minho e a
indústria. A capacidade de produção é de 100 ventiladores até ao final de
Abril, 400 até ao final de Maio e, caso seja necessário, 10.000 até ao final do
ano. (Da próxima vez que me vierem dizer “mas para que é que Portugal precisa
de engenheiros aeroespaciais?”, já sei o que responder). Para o transporte dos
materiais necessários está a ser mobilizada a linha logística da SONAE.
7. Embora a indústria têxtil e de vestuário
seja forte em Portugal, ela está virada para a moda. Em particular, em regime
normal Portugal não produz material para utilização médica (luvas, batas, máscaras,
fatos isolantes) tendo de o importar. O CITEVE (Centro de Centro Tecnológico
Indústrias Têxtil Vestuário de Portugal) reorientou a sua actividade para o
desenvolvimento e produção destes Equipamentos de Protecção Individual, estando
em estrita colaboração com a indústria, estando toda a operação a ser conduzida
em estreita articulação com o Ministro da Economia
8. Finalmente, é muito bom saber que a FCT
está a apoiar a DGS na preparação de uma plataforma de dados de acesso aberto.
A DGS não tem neste momento os dados organizados e codificados de uma forma que
permita o seu tratamento com as ferramentas da Ciência de Dados, permitindo
extrair toda a informação relevante. E sem informação sobre o inimigo
dificilmente poderemos ganhar a guerra.
É este o caminho. Temos competências em
Portugal, temos inteligência em Portugal, temos Ciência e Tecnologia em
Portugal, temos indústria em Portugal. Temos tudo! Falta apenas colocar as
rodas em movimento.
Foi muito repetido que este é um estado de
guerra; mas ainda não construímos uma economia de guerra. Mobilizemos tudo o
que o País tem de melhor, recrutemos cientistas, inventemos tecnologias,
reorientemos indústrias. Este é uma guerra que o Estado sozinho não pode
ganhar. Temos de mobilizar a sociedade civil e saber aproveitar tudo o que ela
tem para dar.
No meio do caos, há algumas razões para
esperança. O tempo urge.
Corações ao alto!
Jorge Buescu, 28/3/2020

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