domingo, 22 de março de 2020

Yuval Noah Harari sobre coronavírus: “Parece não haver adultos na sala”



Acredita que o mundo pode superar a pandemia, porque “os humanos são agora muito mais poderosos do que os vírus”. A solução não é fechar fronteiras, mas mais cooperação. “Políticos irresponsáveis”, como Trump, “têm minado a confiança na ciência e na cooperação internacional. Estamos agora a pagar o preço”, diz ao P2 o autor do best-seller literário Sapiens.
 21 de março de 2020, 22:09
Por estes dias, Yuval Noah Harari tem uma agenda muito menos preenchida. Há poucas semanas, percorria o mundo em conferências e palestras. É um dos pensadores mais requisitados da actualidade, com mais de 23 milhões de livros vendidos (Sapiens — História Breve da Humanidade tornou-se um enorme best-seller; seguiram-se-lhe Homo Deus — História Breve do Amanhã e 21 Lições para o Século XXI). Personalidades como o Presidente da França, Emmanuel Macron, ou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, querem ouvir este israelita, que olha para o passado e o presente da espécie humana à procura de pistas para prever o que vem aí.

Em janeiro, no encontro anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, Suíça, o pensador e historiador discorreu sobre “como sobreviver ao século XXI”. Nessa altura, o novo coronavírus era ainda um problema da China — ainda não tinham sido confirmados casos em Itália, que é agora o país mais afectado pela pandemia.

Mas, num instante, tudo mudou. “A crise realça a fragilidade do nosso sistema global, mas a reacção correcta é melhorar o sistema em vez de abandoná-lo”, afirma Harari, numa entrevista ao P2 por email. O que tem visto, porém, são reacções dos países pouco concertadas entre si. “Devido à falta de liderança, não estamos a tirar o máximo partido da nossa capacidade de cooperação”, a única solução para esta crise, que exige a “criação de um sistema de saúde verdadeiramente global”. 
Porque, “para o vírus, não há qualquer diferença entre chineses, italianos, iranianos e portugueses. Somos todos Homo sapiens”.

O que mais o assusta nesta crise?
Uma coisa que realmente me assusta é que, em nome do combate ao coronavírus, vários homens fortes abolirão todos os controlos e equilíbrios democráticos e estabelecerão a “coronaditadura”. Isto acaba de acontecer em Israel: Israel é agora uma coronaditadura.

Os governos em muitas democracias estão a emitir decretos de emergência. Isto é bom. Mas em Israel, um golpe antidemocrático acaba de acontecer. Quando Angela Merkel emite decretos de emergência, fá-lo como líder democraticamente eleita da Alemanha. Mas Netanyahu não é um líder democraticamente eleito. Perdeu as recentes eleições e os seus rivais agora têm maioria no Parlamento e estão a formar um novo governo. Assim, sob o pretexto de lutar contra o coronavírus, Netanyahu fechou o Parlamento israelita, ordenou que as pessoas ficassem em suas casas e está a emitir os decretos de emergência que quer. A isto chama-se “uma ditadura”. Coisas destas podem também acontecer noutros países.

E o que é que lhe dá esperança?
Os humanos são agora muito mais poderosos do que os vírus. Temos o conhecimento científico necessário para superar esta epidemia. Quando epidemias como a peste negra se espalharam no passado, uma das piores coisas foi a ignorância. Havia imensas mortes e ninguém sabia porquê. O que as estava a matar? Como se espalhava? O que podia ser feito para o contrariar? As pessoas sentiam que qualquer pessoa podia morrer a qualquer momento. Acreditavam que talvez fosse Deus que os estivesse a punir ou que alguém usou magia negra contra eles.

Pelo contrário, hoje temos uma ideia muito precisa do que está a acontecer. Os cientistas levaram apenas duas semanas a identificar o novo coronavírus, sequenciar o seu genoma e desenvolver um teste confiável para detectar pessoas infectadas. Se confiarmos na ciência, e se os países cooperarem efectivamente, não há dúvida de que venceremos isto. 

Este é talvez um dos poucos momentos recentes em que muitos de nós nos sentimos definitivamente parte de uma espécie, os sapiens do seu livro. Na reacção global e nas cadeias de solidariedade e vizinhança. O sentimento de ameaça dá-nos essa noção de espécie? Uma epidemia ou pandemia é uma coisa terrível, mas pode mostrar-nos a nossa natureza humana?
É mesmo isso. A epidemia deve lembrar-nos de que todos nós partilhamos a mesma natureza humana e os mesmos interesses básicos. Para o vírus, não há qualquer diferença entre chineses, italianos, iranianos e portugueses. Somos todos Homo sapiens.

As pessoas falam muito sobre a necessidade de proteger as fronteiras nacionais contra a epidemia. Mas a fronteira realmente importante que precisamos de guardar é a fronteira entre o mundo humano e a esfera do vírus. Esta fronteira está dentro do corpo de cada ser humano. Se um vírus perigoso consegue penetrar nesta fronteira em qualquer parte da Terra, coloca toda a espécie humana em perigo. Se um vírus salta de um morcego para o corpo de um ser humano na China, isso também é uma ameaça directa à minha vida. Por isso, é do meu interesse que as pessoas em todos os países disponham de bons cuidados de saúde.

O seu livro Sapiens explica como o poder da cooperação é o que realmente nos distingue dos outros animais. O mundo está a explorar plenamente essa força ou a luta contra o coronavírus é prejudicada pelas agendas nacionais?
A grande vantagem dos seres humanos sobre os vírus é a capacidade de cooperarem eficazmente. Um coronavírus na Coreia [do Sul] e um coronavírus em Portugal não podem trocar dicas sobre como infectar os humanos. Mas a Coreia pode dar a Portugal muitas lições valiosas sobre o coronavírus e como lidar com ele. Mais do que isso: a Coreia pode até enviar especialistas e equipamento para ajudar directamente Portugal. Os vírus não podem fazer nada disso.

"A fronteira realmente importante que precisamos de guardar é a fronteira entre o mundo humano e a esfera do vírus"

Infelizmente, devido à falta de liderança, não estamos a tirar o máximo partido da nossa capacidade de cooperação. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis têm deliberadamente minado a confiança na ciência e na cooperação internacional. Estamos agora a pagar o preço por isso.

Parece não haver adultos na sala. Já devia ter havido há semanas uma reunião de emergência dos líderes globais para apresentar um plano de acção comum para combater tanto a epidemia como a crise económica. Mas só esta semana os líderes do G7 conseguiram organizar uma videoconferência, que não resultou num plano desse tipo.

Durante a epidemia de ébola de 2014 e a crise financeira de 2008, os EUA funcionaram como líder global. Reuniram-se atrás dos EUA países suficientes para evitar uma catástrofe global. Mas, nos últimos anos, os EUA renunciaram ao seu papel de líder global. A actual Administração americana cortou o apoio a entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde e deixou muito claro ao mundo que os EUA não têm mais amigos de verdade — têm apenas interesses. Quando a crise do coronavírus eclodiu, os EUA ficaram à margem e, até agora, abstiveram-se de assumir um papel de liderança. Mesmo que acabem por tentar assumir a liderança, a confiança na actual Administração dos EUA foi de tal forma corroída que poucos países estariam dispostos a segui-la. Seguiria um líder cujo lema é “Eu primeiro”?

Há alternativas a essa liderança americana?
Esperemos que outros países possam preencher o vazio deixado pelos EUA. Veríamos mais e melhor cooperação em pelo menos cinco campos.

Primeiro: compartilhar informações confiáveis. Os países que já experimentaram a epidemia devem dar lições aos novatos. Dados de todo o mundo devem ser partilhados aberta e rapidamente com os objectivos de conter a epidemia e desenvolver medicamentos e vacinas.

Segundo: coordenar a produção global e a distribuição justa de equipamentos médicos essenciais, tais como kits de teste e ventiladores pulmonares. A coordenação global pode superar estrangulamentos na produção e pode garantir que o equipamento vá para os países que mais precisam dele — e não para os países mais ricos.

Terceiro: os países menos afectados devem enviar médicos, enfermeiros e especialistas para os países mais afectados, tanto para os ajudar como para adquirir experiência valiosa. O centro da epidemia continua a mudar. Antes era a China, agora é a Europa, talvez no próximo mês sejam os EUA e mais tarde o Brasil. Se o Brasil enviar ajuda para a Itália hoje, talvez dentro de dois meses, quando a Itália recuperar e o Brasil estiver em crise, a Itália retribua o favor.

Quarto: criar uma rede de segurança económica global para salvar os países e sectores mais atingidos.
E quinto: formular um acordo global que permita que os viajantes prioritários continuem a atravessar as fronteiras.

"A grande vantagem dos seres humanos sobre os vírus é a capacidade de cooperarem eficazmente"

Existe um perigo real de os políticos usarem esta crise para fechar fronteiras e aumentar a polarização e a xenofobia, uma tendência que já vinha de trás? Ou, pelo contrário, irá a pandemia fomentar os laços e a solidariedade entre os países?
Depende de nós. Espero sinceramente que a pandemia fomente a solidariedade, não só entre os países, mas também dentro dos países. Infelizmente, nos últimos anos, assistimos à ascensão de líderes populistas, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, que incitam ao ódio não só contra os estrangeiros, mas até mesmo contra concidadãos. Estes líderes têm feito tudo ao seu alcance para dividir a sociedade em campos hostis, retratando a oposição não como rivais legítimos, mas sim como traidores perigosos. Desta forma, ganharam a lealdade de uma metade da sociedade, ao mesmo tempo que alienaram completamente a outra.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os americanos odeiam-se agora muito mais uns aos outros do que odeiam os russos ou os chineses. Parte da América acredita que Trump é um génio infalível. A outra parte não acredita numa palavra do que Trump diz. Isso torna extremamente difícil gerir a crise actual. Em tempos normais, Trump pode governar os Estados Unidos com o apoio de apenas metade dos cidadãos. Mas, para superar a epidemia e a crise económica, ele deveria conquistar a cooperação de todos. Como é que ele vai fazer isso? Se ele der alguma orientação através da televisão, metade dos americanos pode segui-la, mas a outra metade terá muita dificuldade em confiar nele. Diriam para si mesmos: “Este tipo mente-me há três anos. Porque haveria de acreditar nele agora?”

Espero que líderes como Trump abandonem as suas tácticas de dividir para reinar e façam tudo ao seu alcance para reconquistar a confiança de todos os cidadãos.

Esta crise põe a nu a fragilidade do mundo moderno globalizado? De repente, muita coisa mudou. A pandemia vai afectar a nossa noção de um mundo interligado?
De facto, a crise realça a fragilidade do nosso sistema global, mas a reacção correcta é melhorar o sistema, em vez de o abandonar. O custo económico de desmantelar permanentemente o sistema global de comércio e transportes seria imenso e não nos protegerá verdadeiramente de epidemias futuras.

Epidemias como a peste negra espalharam-se mesmo na Idade Média, muito antes da era da globalização. Portanto, mesmo que reduzíssemos as ligações globais para níveis medievais, fizéssemos aterrar todos os aviões e voltássemos a viajar em mulas, ainda sofreríamos de epidemias. A única época em que os humanos estavam tão isolados que não tiveram epidemias foi na Idade da Pedra, antes da Revolução Agrícola e da ascensão das primeiras cidades. Acha que podemos voltar à Idade da Pedra?

A verdadeira protecção contra epidemias será obtida através de mais investigação científica, de uma troca de informações mais aberta e da criação de um sistema de saúde verdadeiramente global.
"Se o Brasil enviar ajuda para a Itália hoje, talvez em dois meses, quando a Itália recuperar e o Brasil estiver em crise, a Itália retribuirá o favor"

A urgência associada a esta pandemia não tem paralelo, por exemplo, na resposta às alterações climáticas. Perante a covid-19, não há espaço para a negação, os cidadãos sentem o perigo à sua volta, a ameaça. Como podemos tirar algumas lições disto que possamos aplicar na luta contra as mudanças climáticas?
Espero que possamos aplicar as lições da epidemia do coronavírus na luta contra o colapso ecológico. Em particular, a crise do coronavírus deveria ensinar-nos o alto custo de ignorar os piores cenários. Os países que pouparam dinheiro nos últimos anos cortando nos serviços de saúde vão agora gastar muito mais devido à epidemia. Da mesma forma, se tentarmos poupar dinheiro não fazendo nada em relação às alterações climáticas, isso também causará enormes prejuízos a longo prazo.

O que devemos fazer nessa frente?
Algumas pessoas imaginam que, para pôr fim às alterações climáticas, teremos de parar completamente todo o crescimento económico e voltar a viver em cavernas e a comer raízes. Isso é um disparate. Consegue adivinhar quanto vai custar evitar alterações climáticas catastróficas? O número mágico é 2%. E é tudo. Se investirmos 2% do PIB global no desenvolvimento de melhores tecnologias e infra-estruturas, isso é suficiente para evitar alterações climáticas catastróficas. É claro que 2% do PIB global ainda é muito dinheiro. Mas certamente está dentro da nossa capacidade de o fazer. Se amanhã rebentar uma nova guerra mundial, os governos vão gastar muito mais do que apenas 2% do PIB a combater e a tentar ganhar esse conflito. Portanto, gastar 2% para salvar o mundo da catástrofe das alterações climáticas parece muito razoável. 

A propósito da actual pandemia, tem lançado alertas sobre o que pode acontecer à nossa privacidade em nome da saúde pública. Está à espera que isso aconteça no Ocidente?
Há um perigo que aconteça, sim. A epidemia do coronavírus pode ser um momento marcante na história da vigilância. Pode legitimar e normalizar a implantação de ferramentas de vigilância em massa em países democráticos que até agora as rejeitaram. Os governos podem argumentar que esta é apenas uma medida temporária tomada durante um estado de emergência. Mas as medidas temporárias têm o péssimo hábito de viver para além das emergências, especialmente porque há sempre uma nova emergência à espreita no horizonte. Mesmo quando os casos de coronavírus estiverem reduzidos a zero, alguns governos podem argumentar que precisam de manter os novos sistemas de vigilância por temerem uma segunda vaga de coronavírus, ou porque há uma nova estirpe de ébola a evoluir na África Central, ou porque querem proteger as pessoas da gripe sazonal. Porquê parar com o coronavírus?

Uma grande batalha tem sido travada nos últimos anos em torno da nossa privacidade. A crise do coronavírus pode ser o ponto de viragem da batalha. Isto porque, quando as pessoas têm de escolher entre privacidade e saúde, geralmente escolhem a saúde. Mas pedir às pessoas para escolherem entre privacidade e saúde é, na verdade, a própria raiz do problema. Isto é uma falsa dicotomia. Nós podemos e devemos ter direito tanto à privacidade como à saúde. Podemos escolher proteger a nossa saúde e interromper a epidemia do coronavírus, não instituindo regimes totalitários de vigilância, mas educando e capacitando os cidadãos. Quando as pessoas têm uma boa educação científica, e quando confiam nas autoridades públicas para lhes dizer a verdade, as pessoas podem agir de forma correcta por sua própria iniciativa. Uma população automotivada e bem informada é geralmente muito mais poderosa e eficaz do que uma população policiada e ignorante.

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