Premium Situações tremendas, pessoas fantásticas
Rogério Casanova
14 Março 2020 — 00:10
Por ser um dos rituais mediáticos a que todos já assistimos mais vezes em
ficções do que no mundo, há algo vagamente irreal na conferência de imprensa de
emergência, um evento que é um curioso meio-termo entre a raridade e o
lugar-comum. Líderes políticos e peritos técnicos aproximam-se do pódio com
expressões solenes, bombardeados por flashes. Os líderes políticos
fazem um diagnóstico sóbrio da crise, falam de "medidas", asseguram a
eficiência presente e futura de vários processos em curso, adoptam uma retórica
de confiança e estabilidade. Os peritos costumam vir de seguida, recitando
números e acrónimos num tom mais prático. Um deles pode ser destacado para
fazer pedagogia coloquial, e tem autorização tácita para recorrer a um
vocabulário diferente, que não exclui a palavra "beijinhos".
"Informar" é o principal propósito, mas "tranquilizar" é um
forte e compreensível concorrente, e não é um exagero afirmar que ambas as
intenções são muito mais fáceis de concretizar quando quem fala consegue
pronunciar polissílabos, transmitir plausivelmente a ideia de que o seu
significado não é um profundo mistério e convencer-nos de que faz parte do
mesmo mundo que nós.
Nos últimos dias, à medida que as coisas deixaram gradualmente de ser como
eram para passarem a ser como são, o ritual foi encenado em vários países
europeus, com diferentes graus de "sucesso", na definição mais
superficial do termo (mais elogios na Dinamarca, mais críticas em Espanha,
etc.). Em Portugal, o consenso geral parece ter sido que, salvo as habituais
vogais devoradas pelo Primeiro-ministro, um lábio superior transpirado, e um ou
outro espasmo de microexasperação por parte da directora da Direcção-Geral da
Saúde e da ministra da Saúde, o ritual podia ter corrido bem pior. Com maiores
ou menores inércias locais, incompetências pontuais e interpretações sectárias,
há um intervalo de normalidade que não foi ultrapassado.
O contraste com o que foi acontecendo nas televisões americanas foi, para
usar uma palavra especialmente relevante, "tremendo". Estas semanas
forneceram lembretes periódicos de algo entretanto tão bem assimilado e
traduzido para as circunstâncias do dia-a-dia que quase já não é registado
conscientemente: que uma das pessoas mais estúpidas, desinformadas e
impreparadas da sua geração foi eleita para o cargo mais consequente do mundo.
Tanto a sua conferência de imprensa improvisada depois da visita aos Centers
for Disease Control and Prevention em Atlanta (onde, entre outras proezas,
interrompeu a pergunta de um jornalista para exaltar o seu génio para a ciência
e reiterar que muitos cientistas com quem se cruzam ficam regularmente
devastados pelo seu conhecimento do assunto), como no discurso televisivo de
quarta-feira, em que tresleu várias vezes o teleponto e obrigou o aparato
federal a passar as horas seguintes a esclarecer, corrigir ou desmentir aquilo
que o presidente dos Estados Unidos da América anunciou ao mundo inteiro,
mostraram mais uma vez a dimensão histórica da anomalia que é a sua presença
naquele lugar.
Aquele lugar, bem entendido, é o cargo que ocupa, e não o seu
posicionamento físico à frente de uma câmara ou atrás de um ecrã. Há várias
razões, impossivelmente complexas, para se ter chegado aqui, mas Trump, pelo
contrário, é fácil de compreender, a partir do momento em que o identificamos
como aquilo que é: uma criatura essencialmente televisiva, tanto no sentido
activo como no passivo, e cujos extraordinários défices de personalidade são
uma consequência dessa condição específica. Tal como muitas outras pessoas,
Trump passou milhares de horas a ver televisão (e, crucialmente, apenas certas
categorias de televisão), e a reagir à televisão, e a falar para a televisão; a
soma total do seu repertório mental consiste em memórias truncadas de coisas
que alguém na televisão já disse. Mas, e ao contrário de todas as outras
pessoas da sua idade às quais isto se aplica, quando Trump fala com a televisão,
a televisão responde mesmo. O seu conhecimento sobre qualquer assunto (e,
portanto, a única "verdade" que lhe interessa e é capaz de reconhecer
e repetir) é aquilo que as suas recordações fragmentárias de espectador lhe
permitem dizer em voz alta. No momento em que ele o diz, é verdade, e porque o
disse, vai ouvir-se a si próprio a dizê-lo outra vez, na televisão, e depois
repete a verdade que ouviu, uma "verdade" que entretanto já se
esqueceu das próprias vésperas, mas ganhou solidez.
O presidente dos Estados Unidos da América habita uma versão televisiva de
uma antiga categoria literária: a comédia pastoral. Um mundo suspenso,
verdejante e resguardado, onde fadas protegem o protagonista, fortunas são
milagrosamente concedidas pelo destino, e toda a gente se casa no fim - no seu
caso, três ou quatro vezes. É uma realidade destituída dos seus atritos mais
desgastantes e em que o maior problema - como num conto de P. G. Wodehouse - é
um comentário indiscreto ou desagradável, ou um desejo que não foi concretizado
suficientemente depressa.
Trump é o único habitante dessa terra autocontida e o resto do mundo é
apenas o que acontece no ecrã: uma narrativa abstracta de micro-rancores,
fixações absurdas e conflitos efémeros que é permanente, mas mantém ao mesmo
tempo a capacidade de recomeçar do zero todos os dias - ou a cada episódio, ou
a cada segmento noticioso. A "política" entendida por este prisma é
menos uma actividade do que uma espécie de catecismo: uma recitação de
inimigos, irritações e contabilização de pontos ganhos ou perdidos,
desempenhada em total isolamento mas também em sintonia tácita com mais alguns
milhões. É por isso que quando Trump fala na televisão está a falar como futuro
espectador e a gaguejar na direcção da única forma que conhece de reconciliar
as coisas como elas são com as coisas como preferia que fossem: reiterar que
algumas acções tremendas estão a ser praticadas por pessoas fantásticas, sob a
sua supervisão; que a culpa do que não é bom não é sua; que nenhuma das piores
coisas que podemos pensar sobre ele são ou podem ser verdade; que nada é assim
como é, mas exactamente ao contrário. E continua a fazê-lo até ser apenas ele a
falar consigo próprio, a congratular-se pela qualidade do que diz e a aguardar
que a televisão o repita, enquanto o resto do mundo se dedica à tarefa de
evitar que pessoas se aleijem.
Escreve de acordo com antiga ortografia.
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