A guerra que não podemos ter
Uma epidemia é uma
situação trágica. Vão morrer provavelmente milhões de pessoas no mundo, dezenas
de milhares em Portugal. A ciência (médica, epidemiológica) ditará a prevenção
e a reação, dentro daquilo que é novo, e do que não é novo. À política cabe
interpretar a ciência e permitir que ela atue e chegue ao mundo real de cada
um, que os testes cheguem a quem precisa, que as pessoas só andem o necessário,
que ninguém vá onde não tem de ir, mas não deixe de ir onde tem de estar.
Ciência e política tratam da cura. Mas a política não trata só da cura. Fazer
política em tempo de pandemia é também não embarcar em curas que matem quase
todos por muitos anos. E não vai ser fácil a política que nos protege da cura.
Por mais
teletrabalho, 5G, medidas excecionais de adiamento de prazos e de pagamentos,
nenhum país sobrevive fechado em casa meses a fio, a sair para passear o cão.
Esta verdade, que é evidente, terá hoje poucos adeptos vocais, porque quadra
pouco com o sentimento de pânico geral, com o instinto humano de proteção, com
a tragédia real que se avizinha, com todas as mortes em conjunto e com cada uma
delas em concreto, com as escolhas sobre os ventiladores. Mas essa atitude de
nos defender da cura alguém tem de a ter, e é isso que também, repito, também,
se exige de quem nos governa. E, desde já, não é quando o mal estiver feito que
se vai tentar reanimar o restaurante fechado despejando dinheiro, ou perdoando
o pagamento por conta.
Mais do que na
área da saúde, o governo tem dado uma resposta clara ao lado económico da
pandemia, pela voz do ministro Siza Vieira. António Costa, numa entrevista na
SIC, quis deixar claro que, mais do que obrigar as pessoas a ficar em casa,
poderia ter de tomar medidas precisamente no sentido contrário, de obrigar
setores, fábricas, áreas a não fechar, obrigar pessoas a sair de casa, a terem
de trabalhar. Outros poucos políticos, como Fernando Medina, têm tido a coragem
de insistir no ponto fulcral de que há também o dever de minorar a crise
económica e social. A breve trecho, serão mais os que falarão nisto e os
emergencistas perceberão que a emergência económica vai ser sobretudo uma
emergência social, porque todas as crises doem sempre mais e primeiro a quem
menos tem, quem menos pode. A quem menos merece. Há um estrato da população,
mais pobre, de qualificações mais baixas, que já está dividida entre os que têm
de trabalhar (na caixa do supermercado, na distribuição da refeição, na recolha
do lixo, no tratamento das águas, na logística toda por detrás da prateleira do
supermercado) e os que não podem trabalhar e têm de ficar em casa sem saber o
que vai acontecer no mês seguinte ao do fecho da loja, do restaurante ou do
ginásio.
Claro que a
questão é complexa, até porque não há muito que um país possa fazer sozinho,
mas é alguma coisa. Mais tarde ou mais cedo - por razões económico-sociais mais
do que por razões ligadas à progressão da doença -, algumas medidas mais
drásticas vão ser revertidas para que se tente acolchoar uma pancada cuja força
bruta ninguém ainda sabe qual vai ser. E nesse momento vai achar-se que é
demasiado cedo para tirar as pessoas de casa, que é preciso esperar mais,
manter o pé no travão.
Aquilo que podemos
dar-nos ao luxo de ter é uma guerra entre os quarentenistas e os outros, entre
os que querem mais recato e os que defendem e fazem para que o país não pare.
Porque essa guerra, que vai ter uma acusação moral implícita (os que preferem a
economia e os que preferem a vida dos idosos), é só a guerra que nos faltava. E
não terá vencedores.
João Taborda da
Gama, DN, 21 de março de 2020
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