Venezuela
O quebra-cabeças impossível
TEXTO DANIEL LOZANO, EM
CARACAS
Aquele que fora o país mais rico da América Latina até à chegada do chavismo
esforça-se hoje por sobreviver, esmagado pela realidade, no sétimo ano de uma
recessão económica que já lhe devorou dois terços do seu produto interno bruto.
Os mesmos anos que Nicolás Maduro leva à frente do governo, disposto a quebrar
todos os recordes possíveis: a maior contração da história contemporânea, a
maior hiperinflação do século (28 meses seguidos), a pior crise para um país
sem guerra, o país mais violento do planeta e os serviços públicos mais
arruinados, tudo isto no meio da maior diáspora conhecida, que este ano
superará aquela que é protagonizada pelos sírios. Como se possuir nas suas
entranhas as maiores reservas de petróleo, minas de ouro, diamantes ou coltan
(columbita-tantalita) se tivesse convertido numa maldição.
A repressão e a perseguição política também fazem obrigatoriamente parte
deste mesmo cenário humano, são os grilhões necessários para dar cabimento à
popular sentença lampedusiana: “Tudo muda para que tudo continue igual.”
Forçado pela realidade, pressionado pelas sanções internacionais, e sem
esquecer Lampedusa e o seu “O Leopardo”, o chavismo optou por reduzir os
controlos impostos à economia desde a chegada de Hugo Chávez ao poder para
abraçar um capitalismo ao estilo chinês e a dolarização de facto, iniciada pela
própria sociedade face ao desaparecimento do bolívar, a moeda venezuelana, nas
ruas.
Por estes dias cumpre-se um ano desde o colapso elétrico nacional, que não
só deixou o país às escuras durante cinco dias, como também inaugurou 12 meses
de calvário constante, entre apagões e cortes no abastecimento de água, o qual
depende da energia. Foi nesse período que o comum sobrevivente venezuelano
chegou à conclusão de que só com dólares sairia de um apuro para se meter
noutro.
A Venezuela forma assim um gigantesco quebra-cabeças impossível, cujas
peças não encaixam de maneira alguma, mas que condiciona milhões de vidas. Peça
a peça, história a história, o Expresso reconstrói parte desse quebra-cabeças
nacional.
A VIDA
“O que nos salva dos escombros é o olhar”, escreveu o poeta venezuelano
Rafael Cadenas. Um olhar cheio de luz, como o de Neolmar Galindo, que decidiu
cruzar a fronteira para deixar o vazio do outro lado. No ano passado, esta
jovem venezuelana de 18 anos foi grávida desde a sua Cagua natal, situada a 100
quilómetros de Caracas, até à fronteira com a Colômbia, decidida a iniciar uma
vida, ou mesmo duas, muito longe da sua terra. Agora, acaba de dar à luz no
Hospital Universitário Erasmo Meoz, em Cúcuta, e a sua principal preocupação é
o bebé, a quem quer batizar com o nome Liam. O seu companheiro está disposto a
seguir a moda e a dar-lhe um nome composto pelas primeiras sílabas dos nomes
dos pais e dos avós. O resultado, quase irreproduzível, assemelha-se mais à
marca de um antibiótico.
Noelmar deu à luz no país vizinho por obrigação e poucas horas depois de
Nicolás Maduro ter ordenado às mães venezuelanas que parissem seis filhos para
que “a pátria cresça”. “Em San Antonio não nos atendiam”, resume ela sem
crueza, sem dar importância a isso, porque é assim que estão as coisas no seu
país, toda a gente o sabe. Durante os últimos meses da gravidez, a jovem
atravessou todos os dias a Ponte Internacional para ir vender refrescos no lado
colombiano, sabendo que num único dia ganhava mais do dobro do salário mínimo mensal
no seu país.
“Eu já perdi um bebé no Hospital Central de Valencia (terceira cidade do
país, a duas horas de Caracas). Não me fizeram análises, não havia
medicamentos, nada de nada. Agora estou aqui em Cúcuta e vendo tinto (café) na rua, dá-me para ir comendo. E já
estou de 36 semanas. Aqui sim, trataram de mim durante toda a gravidez”,
explica Naidel, de 24 anos, na antessala dos partos.
Cerca de 20 venezuelanas grávidas aguardam a sua vez no hospital
colombiano, perto do quarto onde Noelmar descansa. Com os seus relatos
pulverizam a ficção do Plano de Parto Humanizado anunciado por Maduro nas
televisões chavistas. “Eu fui até lá e não há nada de nada, nem sequer
oxigénio. Fui lá com dores e disseram-me logo que seria melhor que viesse para
aqui”, revela Máryori, de 19 anos.
Um lugar onde as promessas presidenciais não passam disso, de promessas.
Estas mulheres vieram do seu país até Cúcuta para parirem ou, de caminho, em
busca de uma vida melhor. Só em 2016 vieram 212 venezuelanas dar à luz neste
moderno hospital, que em nada se assemelha àqueles que agonizam no país do
petróleo. Em 2017 esse número subiu para 734 e no ano seguinte disparou para 2944.
Até que, no ano passado, se bateram todos os recordes, 5300 venezuelanas
durante os primeiros 11 meses, frente às 1697 colombianas.
Passar um único dia na sala de partos do Meoz revela-nos a tragédia da
derrocada revolucionária. Raparigas muito jovens, algumas com 15 anos cumpridos
há pouco, famintas, com infeções e uma taxa pavorosa de sífilis — mais de 30%,
embora se trate de uma enfermidade que muitos julgavam ter passado de moda. Sem
controlos pré-natais, sem vacinas, sem nutrientes e tão mal alimentadas que os
seus bebés não têm capacidade de sucção, carecem de força suficiente para se
alimentarem do peito das suas mães. Sem roupas para os recém-nascidos, sem
fraldas, sem comida... E sem pátria.
O CAPITALISMO CHINÊS
Com o país à beira do colapso e com as sanções internacionais a
cortarem-lhe a capacidade de manobra, a revolução decidiu abraçar o modelo
económico chinês, só que em versão crioula. A mudança começou em finais de
2018, quando um enviado do Governo de Pequim deixou o país boquiaberto. O militar
Wilmar Castro, então ministro da Produção Agrícola, perguntou ao seu convidado
como poderiam endurecer, ainda mais, os seus controlos contra a economia
privada. Impassível, o especialista chinês retorquiu ao seu anfitrião: “O
governo não pode efetuar um bom controlo direto, mas pode implementar um
sistema de incentivos. Algumas boas empresas de que muito necessitamos poderão
desenvolver-se com mais rapidez.”
A televisão chavista nem sequer informou qual era o nome do visionário, mas
a partir desse momento começou a anunciar a mudança económica que viria. A
abertura dos chamados bodegones, com
produtos importados diretamente pelos empresários (algo que era impossível sob
o regime do controlo de câmbio), é uma das principais consequências das
reformas liberalizadoras dos últimos meses, que abriram novas janelas à
asfixiada economia revolucionária. Como se quisesse procurar a sua salvação
copiando o grosso manual das receitas económica e financeira da China
comunista. Tudo isso com a presença em Caracas de assessores chineses e russos,
que vieram substituir os mais ortodoxos, próximos do partido espanhol Podemos.
A economia venezuelana começou a contrair-se em 2014 e desde então não
deixou de o fazer. Em 2016 a inflação já superou os 100% anuais, e em novembro
do ano seguinte começou a hiperinflação, quando os preços ultrapassaram os 50%.
As primeiras sanções pessoais só chegaram em 2017, com um PIB que já acumulava
20 pontos de queda, e as mais fortes, ao petróleo, são do ano passado. Já então
a escassez brutal de alimentos e de medicamentos provocava as primeiras vagas
migratórias. No final deste ano espera-se que quase seis milhões de
venezuelanos tenham fugido do país.
“Como as instituições do Estado estão a ser alvo de sanções, é preciso
mover a economia através do sector privado, que tem melhor maneira de lidar com
a situação porque não sofrem sanções. Estão encurralados e procuram uma saída.
A complexidade da situação económica também os obrigava a fazê-lo. As sanções
não são o único motivo, houve outros que colaboraram, como a precariedade e a
pressão social. Não é o único motivo, mas no meu entender faz parte deles”,
revela Henkel García, diretor da consultora financeira Econométrica.
Sanções que também limitaram a corrupção galopante do chavismo. Nos 21 anos
de revolução ter-se-ia desfalcado a astronómica quantia de entre 400 mil
milhões e 700 mil milhões de dólares, segundo os dois vice-presidentes
económicos da era Chávez e segundo as investigações do Parlamento. A maior
corrupção da história da humanidade.
A FOME
A propaganda bolivariana lançou imensas cortinas de fumo para ocultar uma
realidade que todos os dias rói os estômagos dos venezuelanos. A fome é a
principal causa das últimas vagas de exilados, os deserdados de uma transição
económica que só se percebe em pequenas bolhas nas grandes cidades. Assim o
testemunha, de forma muito rotunda, o último relatório do Programa Mundial de
Alimentos das Nações Unidas: uma em cada três pessoas na Venezuela não dispõe
de comida suficiente. Os tubérculos e os feijões são os que aguentam melhor a
ditadura da hiperinflação. E isso porque esta reduziu a voracidade deles: em
fevereiro “desfrutou-se” da inflação mais baixa em três anos, claro, mais do
dobro da inflação média anual no resto da região.
O inquérito da ONU revela que 74% das famílias tentam proteger-se com
“estratégias de sobrevivência” para que a fome não as surpreenda, 60% decidiram
diminuir as rações de cada alimento e 20% venderam bens familiares a troco de
comida.
Embora se desconheçam os pormenores desta investigação, Wuilfrancy Álvarez,
em plena fuga do país, resume as últimas mudanças à sua maneira: “A situação no
nosso país é crítica, mas é verdade que a meio do ano passado a comida
regressou aos supermercados, e os produtos básicos também. Mas isso de nada
serve, porque não há trabalho e o dinheiro do salário mínimo é miserável, por
isso estamos tão mal como estávamos, ou pior.”
A bolha económica de Caracas, a “recuperação” que é alardeada pelo governo,
desfruta-se num outro “planeta” exclusivo. Sete em cada dez inquiridos pela ONU
confirmaram que é possível encontrar os alimentos, mas que os preços são
inacessíveis. Um terço dessas pessoas perdeu o emprego ou o seu negócio durante
a depressão económica.
“Por trás de toda esta fome há expropriações maciças de terras desde 2010,
controlo de preços desde 2011, milhares de confiscos e de sanções à indústria
alimentar durante uma década, centenas de produtores falidos, rebanhos
desmembrados e supermercados perseguidos”, conclui a nutricionista Susana
Raffalli, que é uma das mais prestigiadas do país. De um consumo per capita de 22 quilos de carne em 1999, para
apenas quatro quilos por pessoa em 2019. Da produção de 10 milhões de litros de
leite, para menos de quatro atualmente.
Um país tropical em que, por obra e graça da revolução, 60% dos seus
habitantes não comem proteínas nem frutas.
O CASINO
Na Venezuela das duas dimensões, a real e a da imaginada “suprema
felicidade” do chavismo, o zénite revolucionário é a intenção do regime em
converter Caracas na nova Montecarlo da América, pouco importando o impossível
cenário que a rodeia. Aos Ferraris, Porsches, restaurantes de luxo, discotecas cool e bodegones repletos
de produtos importados de Miami, que apareceram de surpresa nos últimos tempos,
somar-se-ia agora um casino socialista no emblemático Hotel Humboldt. Esta joia
da arquitetura venezuelana ergue-se imponente acima dos 2 mil metros de
altitude, instalada no cimo do Parque Nacional El Ávila. Como se se tratasse de
um espectador privilegiado de semelhante tragédia.
Na Venezuela ninguém se esqueceu de que Hugo Chávez encerrou os casinos e
os bingos entre 2007 e 2012, deixando mais de 100 mil pessoas sem emprego.
Nesses tempos, o “comandante supremo” perseguiu estes “antros de corrupção e de
lavagem de dinheiro”. Essas casas de apostas, que eram “frequentadas por
pessoas da classe alta”, encerraram, mas o mesmo não sucedeu com a prostituição
e a venda de drogas, que assistem a um novo renascimento graças à dolarização
de facto.
O casino do Humboldt faz lembrar aqueles que a ditadura do cubano Fulgencio
Batista favoreceu antes da revolução castrista, e que tinham os mafiosos de
Chicago como principais protagonistas. Na versão socialista do século XXI só se
poderá pagar com a criptomoeda petro, ou então com euros, yuans e dólares, o
que impede mais de 80% dos venezuelanos de acederam a um local tão exclusivo.
Um casino aberto às mesmas notas verdes que se jogaram aos milhões nas
míticas salas dos hotéis Capri, Riviera e Nacional, em Havana, antes de Fidel
Castro as encerrar. “Chegou o comandante e mandou parar”, como diz a canção
tantas vezes entoada.
O negócio que a revolução bolivariana irá pôr em marcha em breve vem coroar
a pequena bolha de Caracas, até agora concentrada em três ou quatro ruas e que
abastece os famosos “enchufados” (chavistas e empresários da oligarquia,
enriquecidos pela sua proximidade ao poder). Os especialistas em economia
asseguram que parte deste sonho económico se sustém graças ao branqueamento de
divisas.
O Humboldt é por decreto um hotel de sete estrelas, como o Burj Al Arab do
Dubai. Foi erigido num tempo recorde em 1956. Eram outros tempos na Venezuela.
A POBREZA
“A Venezuela é muito pobre, há uma perda brutal do poder de compra”, repete
o economista Asdrúbal Oliveros sempre que lho perguntam, para desmentir o
título outorgado pela revolução a este 2020: o ano da “recuperação económica”.
O salário mínimo mensal equivale a 3 dólares, quando no Haiti, o país mais
pobre da América Latina, que foi destruído há uma década por um violento
terramoto, é de 66 dólares. Para se adquirir o cabaz alimentar de um mês seria
preciso dedicar três anos de salário integral. Quem pretenda tratar do
passaporte terá de respirar fundo: deverá poupar todo o seu salário mínimo
durante quatro anos e meio.
“Estamos como no filme ‘Mad Max’ antes do extermínio, a sobreviver com o
mínimo”, esclarece o mensageiro Héctor García, de 56 anos e que mora perto do
bairro Petare, em Caracas, a maior favela da América Latina. “Os serviços aqui
são terríveis, sempre intermitentes. A água chega-nos uma vez por semana, e só
se tivermos muita sorte duas vezes em cada sete dias. Corre durante cinco ou
seis horas nesse dia e uma pessoa aproveita para lavar a roupa e para fazer as
limpezas. Em casa também guardamos a água em recipientes plásticos. Poupar,
poupar, uma pessoa sobrevive poupando a água ao máximo. E quando falta a luz
ligo o meu pequeno gerador para resolver a noite”, descreve García, que também
se queixa do lixo que se acumula implacavelmente nas ruas e da “ditadura” do
dólar: a maioria dos alimentos vende-se a troco das notas verdes americanas.
“A este tipo de regimes convém que as pessoas sejam mais pobres. Se são
mais pobres ficam mais dependentes da CLAP (atualização bolivariana das
cadernetas cubanas de racionamento alimentar) e do cartão da pátria (ferramenta
de controlo social do governo), e mais serve o discurso de que as sanções são
culpadas de tudo”, critica o economista marxista Manuel Sutherland.
OS TORTURADOS
O relatório anual da ONG Provea, uma das mais respeitadas no país, confirma
o “terrorismo de Estado” aplicado pela revolução bolivariana para se manter no
poder a todo o custo: ao longo de 2019 pelo menos 574 pessoas sofreram torturas
e, destas, 23 morreram.
Desde a chegada de Nicolás Maduro ao poder em 2013 contabiliza-se a morte
de 72 pessoas debaixo de tortura. Sete anos durante os quais se “legalizou” a
impunidade. “A tortura converteu-se numa prática generalizada e sistemática que
se comete diariamente na maioria das prisões e dos centros de detenção contra
presos comuns e contra pessoas privadas da liberdade por razões políticas”,
especifica a Provea.
Inti Rodríguez, um dos investigadores principais da Provea, atribuiu mais
números ao horror: 5232 violações da integridade pessoal, 852 vítimas de
tratamentos cruéis, 1033 feridos, 1804 arrombamentos ilegais e 810 ameaças e
assédios.
“É cada vez mais malévolo”, acrescenta pelo seu lado o Instituto Casla,
dirigido pela ativista Tamara Suju em coordenação com a Organização dos Estados
Americanos (OEA). “São sistemáticas”, confessa o general Cristopher Figuera,
antigo chefe do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), após ter fugido
para os EUA. Foi precisamente na sede desta polícia política que morreu o vereador
da oposição Fernando Albán após sofrer torturas, segundo as denúncias efetuadas
pelos seus familiares e por organizações internacionais.
O assassínio do capitão Rafael Acosta deu a volta ao mundo em junho passado
e confirmou que os agentes governamentais extremam os seus maus-tratos contra
os militares, com o objetivo de afugentarem qualquer protesto ou rebelião e de
atemorizarem familiares, companheiros e advogados. Uma estratégia que ainda
hoje prossegue e que se multiplicou, segundo a Provea.
Esta ONG assegura que se mantém o perfil histórico dos torturados: são
homens jovens e pobres, na sua maioria condenados ou processados por delitos
comuns (74%) e militares (21%) acusados de conspirarem contra Maduro; quase 4%
foram torturados após exercerem o seu direito à manifestação pacífica.
A investigação da Provea aprofunda aquilo que já Michelle Bachelet,
alta-comissária para os Direitos Humanos da ONU, havia exposto no seu histórico
relatório: nos cárceres de Maduro aplica-se corrente elétrica, asfixia-se com
sacos de plástico, realizam-se simulacros de afogamento, espancamentos,
violências sexuais, privação de água e de comida, posturas forçadas e exposição
a temperaturas extremas.
Em fevereiro, uma missão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(Cidh) fez as malas e embarcou na Cidade do Panamá, disposta a comprovar todas
estas denúncias localmente durante uma visita de campo. Nem sequer os deixaram
subir para o avião.
A RESISTÊNCIA
O desafio político lançado em 2019 por Juan Guaidó e pelo Parlamento
democrático sobrevive a muito custo, apesar do apoio internacional, que foi
confirmado após a bem-sucedida digressão do presidente do Parlamento. Grandes
líderes mundiais ratificaram a sua aposta numa Venezuela livre, mas o regresso
à realidade nacional fulminou-lhe as esperanças: à tentativa de linchamento no
aeroporto seguiu-se um ataque de paramilitares, a tiro, contra uma marcha da
oposição em Barquisimeto, que era encabeçada pelo próprio Guaidó.
O regime bolivariano estreitou tanto o cerco em torno do presidente
interino que este já nem sequer pode aceder à Assembleia Nacional ou aos
Gabinetes da Presidência, que foram tomados à força pelos militares. Os seus
homens de confiança estão no exílio ou detidos, enquanto ao seu redor se
desenham novos grupos de oposição por conveniência governamental.
Maduro até pôs em marcha uma falsa mesa de diálogo com grupúsculos amigos,
após ter dinamitado as negociações diretas com a oposição sob a tutela da
diplomacia norueguesa. Sobre as eleições legislativas do fim do ano apenas
pairam incertezas e dúvidas, as mesmas que tem a oposição para se apresentar a
uns sufrágios com partidos ilegalizados, políticos inabilitados e sob o império
da poderosa revolução.
Nos cárceres do chavismo também resistem 328 presos políticos, incluindo
dois deputados, o tio de Guaidó e Roberto Marrero, o braço-direito do
presidente legítimo do Parlamento, que aguarda a liberdade encerrado numa cela
de 2x2 metros sem janelas, e sem ver o sol durante semanas.
UM POEMA
De Rafael Cadenas outra vez, uma voz frágil pelo tempo vivido, que se
agiganta com as palavras até se converter num dos gritos mais poderosos do
continente. E que protesta face à “situação insuportável” do seu povo... “País
mío, quisiera/ llevarte/ una flor sorprendente [Meu país, quis/ levar-te/ uma
flor surpreendente].
Tradução Jorge Pires

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