Manoel de Povos
A
«pós-verdade», nacionalismos e extremismos
Estamos
numa era da «pós-verdade». E a esta associadas, as famosas «fakes news». Elas
proliferam, quais vírus, provocando verdadeiras pandemias sociais. E existem
para todos os gostos desde o social à política, passando até pelo futebol.
Vivemos
numa época assustadoramente de «pós-verdade» em que estamos rodeados de mentiras
e ficções. Tomemos exemplos esclarecedores, ocorridos poucos anos atrás.
Donald Trump afirmou, repetidamente, milhares de vezes que Hillary Clinton era criminosa e, apesar de muitos não terem acreditado, a afirmação implementou-se e o conceito foi absorvido. Donald Trump ganhou as eleições, em 2016, graças em muito a este expediente, aliado ao slogan Make America Great Again.
Em
Fevereiro de 2014, unidades especiais russas, sem qualquer insígnia militar,
invadiram a Ucrânia e ocuparam instalações-chaves na Crimeia. O governo russo e
o próprio Putin negaram, repetidamente, que não se tratava de tropas russas e
descreveram-nas como «grupos de auto-defesa» que poderiam ter obtido
equipamento de aspecto russo em lojas locais. Putin e os seus adjuntos sabiam
que estavam a mentir. Os nacionalistas russos podem desculpar esta mentira,
argumentando que foi dita em prol de uma verdade maior. E qual era a causa? A preservação
da sagrada nação russa.
É que segundo os mitos nacionais russos, a Rússia é uma
entidade sagrada que tem perdurado ao longo de milhares de anos, apesar de
terem sido tentadas invasões de terríveis inimigos que a têm pretendido
desmembrar, criando falsos países.
Mas a Ucrânia não é um deles. É um Estado-nação desde 1991.
Em
2015, Jarosław Kaczyński, líder polaco do Lei e
Justiça (PiS, na sigla original), então na oposição, repetia publicamente que
os migrantes «espalham parasitas e protozoários». O partido foi vencedor
em 2015 e em 2019. Em 2017, Viktor Orbán, na Hungria, afirmou que a imigração
era «o veneno da Europa» e sublinhou o «valor da pátria», preservando a homogeneidade
étnica e que «demasiada mistura traz problemas».
Seja
qual for a visão que preferirmos, parece que vivemos numa assustadora era de
falsidades e apelos extremados aos nacionalismos onde impera a xenofobia. Mas
será que é só nestes últimos tempos que estamos perante tamanhas evidências?
Esclarecendo
isto, basta um olhar rápido para o curso da História em que a propaganda e a
desinformação não são uma novidade. Aqui os exemplos também podem ser vários no
modo e no tempo. Em 1931, o exército japonês simulou ataques a si próprio para
justificar a invasão da China. Esta mesma China que nega que o Tibete alguma
vez tenha existido como país independente. A colonização britânica da Austrália
usou como justificação a doutrina da «terra de ninguém», dando cabo de 50 mil
anos de cultura aborígene.
«Uma
mentira dita uma vez continua a ser mentira, mas uma mentira mil vezes repetida
torna-se verdade». Quem disse isto foi o maestro da propaganda nazi, e talvez o
maior manipulador dos meios de comunicação da era moderna, Joseph Goebbels.
Também,
no século passado, um dos slogans sionistas mais usados aludia ao regresso de
um «povo sem terra [os judeus] a uma terra sem povo [a Palestina]». Em 1969, a
1ª ministra Golda Meir disse que não havia povo palestiniano e que nunca tinha
havido. Portanto décadas de conflitos sangrentos contra algo que não existe!
Na
realidade, os seres humanos sempre viveram na era da «pós-verdade». Deste modo
se culparmos, entre outros, o Facebook, o Twitter, Trump, Putin, israelitas,
nazis por terem aberto a porta a uma nova assustadora realidade, será bom
recordar que há muitos séculos os cristãos fecharam-se a si próprios numa bolha
mitológica de auto-fortalecimento, sem nunca se atreverem a questionar a
veracidade factual da Bíblia, ao passo que milhões de muçulmanos depositaram a
sua fé inquestionável no Alcorão.
Alguém
poderá ficar incomodado por se estar a misturar religião com notícias falsas.
Mas é mesmo aí que quero chegar. Caso seja um cristão fundamentalista, é mais
provável que acredite que todas as palavras da Bíblia são literalmente
verdadeiras. Se acredita mesmo e que tem razão e que a Bíblia é a palavra
infalível do único Deus que existe, então o que dizer do Alcorão, do Talmude ou
do Livro de Mórmon?
E
nada contra a benignidade da religião seja ela qual seja. Antes pelo contrário.
Grande parte da Bíblia, por exemplo, poderá ser ficção, mas ela pode levar
alegria a milhares de milhões de pessoas e continua a encorajar seres humanos a
serem fortes, compassivos, na busca incessante de distribuir ajuda e cuidar dos
mais necessitados. Mas até as pessoas mais religiosas terão de concordar que
todas as religiões, excepto uma (a sua), são ficções.
As
actuais «fakes» sejam elas em vídeos virais, partilhados pelas redes sociais
sejam de outro modo, servem principalmente os «religiosos» do futebol ou os
«religiosos» da política que acreditam no que querem e desejam acreditar. Se no
futebol é inócuo - apesar deste ser o espelho sublimado do que somos -, na
política em que existem cada vez mais «crentes», actuais ou reciclados, tal é
preocupante para a nossa democracia. Relembrar o passado é, mais neste caso,
pedagógico.
Há
um padrão, um guião, para os partidos de extrema-direita: a provocação e, concomitantemente,
uma linguagem sem sentido, onde se fala muito sem se dizer nada. Uma epidemia
que o filólogo Igor Sibaldi chamou de «rumorese». Um discurso em rumorese é
composto de palavras vazias, por termos ambíguos que são contraditórios entre
si, e que não interessa que sejam falsos ou pouco racionais. Ditos em catadupa,
melhor.
As
notícias falsas e os discursos distópicos da actualidade são um problema. Mas
como combatê-los? É melhor não esperarmos a perfeição. A maior ficção é negar a
complexidade do mundo e pensarmos em termos absolutos de pureza cristalina
entre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado.
Povos,
01 de Março de 2020.

Boa análise, com recurso a exemplos históricos corretos. Como combater o fenómeno da "pós-verdade" e os extremismos associados? Não basta atacar os vendedores de mentiras e manipuladores de opinião. Só uma auto-defesa de cada indivíduo pode ser eficaz. Há muito que considero que o indivíduo é, fundamentalmente, aquilo que quer ser. A informação (verdadeira e rigorosa) está hoje à distância de um clique. Mas é preciso que a queiramos procurar e que cada um se muna dos instrumentos suficientes para desmontar as pós-verdades e para destruir os mitos que elas semeiam.
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